Americanos questionam ajuda a paquistaneses

Desde 11 de Setembro, país onde vivia Bin Laden recebeu US$ 20 bi de Washington para combater terrorismo

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

A Casa Branca está tendo problemas para explicar à opinião pública americana como Osama bin Laden viveu por cinco anos tranquilamente em um país que recebe dos EUA uma ajuda anual bilionária - o Paquistão. Segundo um levantamento do Congresso, contribuintes americanos pagaram, só no ano fiscal de 2010, US$ 4,5 bilhões a Islamabad. Desde o 11 de Setembro, teriam sido quase US$ 20 bilhões.

Desde a operação em Abbottabad, no dia 1.º, congressistas republicanos já apresentaram duas propostas para congelar toda a ajuda ao Paquistão. "Nem mais um centavo deve ir a Islamabad até que o Departamento de Estado prove que pessoas no governo paquistanês não estavam acobertando Bin Laden", disse Ted Poe, deputado do Texas e autor do primeiro projeto de lei.

Mesmo a democrata Dianne Feinstein, chefe da Comissão de Inteligência do Senado, afirmou que a relação com o Paquistão "faz cada vez menos sentido".

A atual injeção de bilhões dos EUA no Paquistão teve início em 2001, quando os atentados do 11 de Setembro recolocaram o país do Sul da Ásia no centro do tabuleiro geopolítico. Mas, ao longo de quase dez anos, a dinheirama de Washington não só foi incapaz de alinhar totalmente os interesses paquistaneses aos de Washington, como a ajuda não melhorou a imagem dos EUA no Paquistão, tido como um dos países mais antiamericanos.

Em 2001, 69% dos paquistaneses diziam ter uma visão "desfavorável" dos EUA, de acordo com o instituto Pew Research. Passados nove anos - e US$ 20 bilhões de dólares -, a mesma cifra ficou em 68%.

Do lado paquistanês, autoridades argumentam que a maior parte do dinheiro americano enquadrado na categoria "ajuda" é, na verdade, de reembolsos ligados ao esforço do Paquistão na guerra afegã. Zubair Iqbal, economista paquistanês que trabalhou 35 anos no FMI, afirma que a ajuda real dos EUA não chega a três dólares per capta por ano, se descontados esses pagamentos.

Iqbal defende ainda que esse aporte de recursos cria uma dependência prejudicial à economia paquistanesa. "Ajuda externa é como ópio: você fica viciado e ela não te dá nada em troca", disse ao Estado. "Precisamos é de reformas que façam a economia produzir seus próprios recursos e crescer. Apenas dessa maneira reduziremos a dependência externa. Foi assim com o Brasil, será assim conosco."

Pêndulo. Vários paquistaneses questionam também o fato de Washington nunca ter condicionado a ajuda ao tipo de regime em Islamabad. Na verdade, os EUA deram, ao todo, mais dinheiro a ditaduras do que a governos eleitos do Paquistão.

A "generosidade" americana teve início após o presidente Dwight Eisenhower firmar, em 1954, um acordo de defesa mútua com o premiê Mohamed Ali Bogra. O objetivo era conter a URSS. Em 1958, o general Ayub Khan deu um golpe - supostamente apoiado pelos EUA - e permaneceu no poder por 11 anos.

Paquistão e Índia entraram em guerra em 1965, levando o governo Lyndon Johnson a fechar a torneira da ajuda. Novos combates e as ambições nucleares do Paquistão fizeram os EUA manter distância de Islamabad ao longo da década de 70, mesmo sob governos eleitos.

O cenário se inverteu com a invasão soviética do Afeganistão, em 1979. Segundo Lawrence Wright, analista e veterano repórter da New Yorker, um mês após a ofensiva o presidente Jimmy Carter ofereceu ao ditador Mohammed Zia-ul-Haq um pacote de US$ 400 milhões. Ouviu que a quantia era "mixaria". No ano seguinte, já no governo Ronald Reagan, os EUA quintuplicaram a oferta, iniciando uma parceria que levaria à derrota da URSS - e à criação do Taleban.

Mas, de novo, americanos recuaram após o Paquistão perder importância estratégica, com o fim da Guerra Fria. Nos anos 90, a ajuda ficou na casa das centenas de milhares de dólares, até ser multiplicada por mais de dez com o 11 de Setembro. Islamabad voltava ao topo das prioridades do Pentágono e do Departamento de Estado.

Segundo Iqbal, a margem de manobra do Paquistão na aliança com os EUA é estreita por causa da oposição antiamericana doméstica. Para piorar a situação, existe a percepção entre militares paquistaneses de que os EUA querem se retirar do Afeganistão e, mais uma vez, "abandonar" a região.

Karl Inderfurth, do Center for Strategic and International Studies, de Washington, afirma que os US$ 20 bilhões gastos desde 2001 não compensaram nem para os EUA nem para o Paquistão. O analista defende uma "pausa estratégica" para reavaliar as relações bilaterais. "E, nesse sentido, cortar a ajuda só acelerará o processo de deterioração em que nos encontramos."

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