Americanos ricos decidem concorrer a cargos públicos

Nos EUA, milionários gastam fortunas para se elegerem

Damien Cave & Michael Luo, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Jeff Greene, apelidado de "magnata da crise" por seus bem-sucedidos investimentos em imóveis, se apresentou como candidato ao Senado dos EUA pelo Partido Democrata em um bairro pobre de Miami, onde são muitos os casos de empréstimos subprime, graças aos quais, aliás, ele ficou mais rico.

Exibindo-se em um Cadillac Escalade, defendeu a energia limpa, declarou ao eleitorado que estava "revoltado e frustrado" com a política e sugeriu ideias para a criação de empregos, muitas já haviam sido propostas por alguns políticos em Washington. Entretanto, foi bem recebido como candidato independente pelo eleitorado da Flórida, que aguarda a recuperação da economia local.

Os EUA vivem hoje o que se poderia chamar de "paradoxo da grande recessão". Enquanto os eleitores manifestam sua indignação com a cultura das enormes operações de ajuda, bonificações e buscam governantes capazes de salvá-los, cresce o grupo de candidatos ricos, confortavelmente instalados em conselhos de administração e em clubes de campo, que gastam fortunas para se transformarem em populistas revoltados.

O número de concorrentes a cargos políticos que gastam dinheiro do próprio bolso aumentou nos últimos ciclos eleitorais e, ao que tudo indica, será ainda maior nas eleições legislativas de meio de mandato, que ocorrem em novembro.

No primeiro semestre, pelo menos 42 candidatos à Câmara dos Representantes e ao Senado - 7 democratas e 35 republicanos -, em 23 Estados, doaram mais de US$ 500 mil em recursos próprios para suas campanhas, segundo os dados mais recentes do Center for Responsive Politics. A lista sequer inclui os candidatos a governador e promete crescer com o avançar da temporada eleitoral.

Em termos históricos, os candidatos que se financiam com recursos próprios costumam perder. O National Institute on Money in State Politics concluiu recentemente que apenas 11% dos candidatos que contribuíram com mais da metade de todas as doações para a própria candidatura ou para a de um membro próximo da família ganharam as eleições, desde 2000 até 2009.

Mudança de atitude. Este ano talvez seja diferente. Com a economia em crise, é mais difícil para os candidatos tradicionais levantar recursos, enquanto a febre sem precedentes contra os atuais titulares dos cargos atinge níveis sem precedentes.

"Eles estão concorrendo em um contexto mais favorável", observou Jennifer Steen, professor de ciências políticas da Universidade Estadual do Arizona, em seu estudo sobre os candidatos que financiam a própria campanha. "Portanto, é de esperar que tenham mais sucesso."

Ter montanhas de recursos pessoais para investir em uma campanha política parece imprescindível na Califórnia e na Flórida, grandes mercados em que se gastam fortunas com a mídia. As campanhas para governador são um exemplo disso.

Na Califórnia, a republicana e ex-diretora executiva do eBay, Meg Whitman, superou todos os outros candidatos que também utilizam dinheiro do próprio bolso, gastando US$ 90 milhões de recursos pessoais para esmagar Steve Poizner, que contribuiu com US$ 24 milhões próprios para as primárias republicanas.

Na Flórida, Rick Scott, ex-diretor da Columbia/HCA Healthcare - uma cadeia de hospitais obrigada a pagar multas por cobrar ilegalmente por programas do governo, como o Medicare -, passou a fazer um uso tão frequente da televisão que nos anúncios mais recentes aparece dizendo: "Aqui estou eu de novo." Scott chocou os republicanos ao se tornar o favorito depois de gastar mais de US$ 20 milhões em propaganda.

No entanto, Greene é a maior surpresa do momento. O atual democrata, antes republicano, investidor ousado, que aparece de relógio de ouro e óculos Prada com amigos, como Mike Tyson e Heidi Fleiss, admite estar surpreso com a rapidez com que sua campanha vem ganhando apoio. Representantes democratas, que riam dele no começo, hoje não zombam mais.

Discurso populista. Pesquisas recentes mostram que Greene, de 55 anos , está empatado nas primárias com o deputado Kendrick Meek, democrata de Miami, que era o favorito do partido, embora o governador Charlie Crist ainda lidere como independente em uma eleição que tem três candidatos importantes.

O relatório sobre o financiamento da campanha de Greene, apresentado na semana passada, mostra claramente o impacto de sua riqueza. Ele recebeu apenas US$ 3.036 em contribuições de fora e emprestou a si mesmo - e gastou - US$ 5,9 milhões no segundo trimestre, quase o que Meek levantou em 18 meses.

Greene afirma que este é o momento dos candidatos que se financiam com dinheiro próprio. "Se 2008 foi o ano da mudança, 2010 é o da frustração", afirmou. Sua estratégia, como a de muitos outros candidatos ricos, é simples: explorar a revolta do eleitor americano.

"Estou cheio", diz ele às multidões. Depois, afirma que somente quem venceu nos negócios tem condições de dirigir a recuperação econômica, sem nada dever a interesses particulares.

Novidade política. Linda E. McMahon, republicana de Connecticut, que ganhou uma fortuna como campeã de luta livre antes de concorrer ao Senado, produziu recentemente um especial de TV no qual declara que "os políticos tiveram a sua chance e a desperdiçaram", enquanto seu projeto de governo "se baseia na experiência".

Greene, por sua vez, declarou aos eleitores de Liberty Square, bairro pobre de Miami, que durante toda a sua vida criou empregos. "É por isso que me candidatei."

Sara Smith, presidente da associação de moradores de Liberty Square, aprova novidades como Meek e Greene. "Procuramos candidatos que venham para a rua e nos ajudem", ela disse. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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