Americanos temem agora a mudança que elegeram ano passado

No ano passado, os americanos votaram pela mudança; neste ano, estão preocupados com essa mudança. Chocados pela dimensão dos gastos do governo para impedir que a recessão se transformasse em depressão, estupefatos com a perspectiva de zilhões adicionais em déficits e dívida nacional, eles recebem agora a notícia de que a reforma do sistema de saúde proposta por Obama custará quase US$ 1 trilhão ao longo da próxima década.

Timothy Garton Ash *, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

O esforço de reuniões por várias cidades não deu a Obama a vitória no debate. A maior parte dos americanos que já têm planos de saúde está relativamente contente com o que dispõe. Temem que a reforma os deixe em situação pior - além de custar mais ao país. Mais da metade dos eleitores independentes também está descontente com a proposta. A taxa de aprovação de Obama desabou para quase 50%, pior do que a aprovação da maioria dos seus antecessores na mesma fase do mandato.

Obama fez um belo discurso na quarta-feira. Defendeu de maneira convincente a causa da reforma, reconhecendo o problema fundamental de que os EUA "gastam por pessoa mais de uma vez e meia o que gastam os demais países, sem que isto faça os americanos mais saudáveis". Concluiu afirmando que se deve tentar combinar livre iniciativa e liberdade de mercado com um mínimo de justiça social, segurança e atendimento médico para todos. Apesar de todos os acenos ao bipartidarismo, esse foi também um discurso bastante partidário. Alguns republicanos reagiram com silvos, manifestações inoportunas, e um deles chegou a gritar "mentiroso!". Se não ajudou aos republicanos, tampouco reforçou a autoridade e o encanto de Obama.

Mesmo que o discurso o ajude a conquistar o apoio público e os votos dos congressistas, isto ainda assim permitirá apenas que ele aprove no Congresso uma versão modesta e negociada da reforma do sistema de saúde. A proposta deve abordar o problema social mais urgente, o dos aproximadamente 17% de americanos que não são cobertos por nenhum tipo de seguro-saúde. Mas não vai cuidar do problema econômico fundamental, que é o aumento grotesco no custo do sistema - totalmente desproporcional aos seus benefícios para os pacientes, mas extremamente lucrativo para as seguradoras.

O Afeganistão, a reforma do sistema de saúde da política externa de Obama, também vai mal. Sob o nariz dos soldados e observadores dos EUA e da Europa, o regime do presidente Hamid Karzai esteve aperfeiçoando suas habilidades na fraude eleitoral. O governo está envolvido num debate a respeito do envio de reforços, conforme insistem Hillary Clinton e Richard Holbrooke, o que sugere comparações funestas com o aumento no número de soldados no Vietnã durante o governo de Lyndon Johnson. É quase impossível imaginar uma "vitória" clara no Afeganistão. E se Obama acusou Bush de "agir" no Iraque às custas do Afeganistão, os críticos de Obama o acusam de dar prioridade ao Afeganistão às custas daquele que é um teatro de operações verdadeiramente decisivo no combate ao terrorismo islâmico no longo prazo: o Paquistão.

Duas explicações são oferecidas para o sofrimento de Obama. Os democratas dizem que a história (e em especial George Bush) o colocou numa situação bastante difícil. Os republicanos dizem que ele está lidando mal com as circunstâncias. E as duas coisas parecem ser verdadeiras. Mesmo com os sinais de recuperação, ou ao menos de uma desaceleração no declínio, o desemprego está agora no limiar dos 10%. Os contribuintes pagarão durante décadas o custo do resgate e dos pacotes de estímulo. A reforma do sistema de saúde é um dos maiores e mais intratáveis temas domésticos, tornando-se maior e mais intratável a cada governo que fracassava em abordá-lo.

"Com suas asas de cera derretidas, Obama é o homem que caiu na terra", caçoa o comentarista neoconservador Charles Krauthammer.

Mas Obama ainda não se tornou Ícaro. Muitos presidentes se recuperaram de pontos mais baixos e viveram um segundo mandato mais forte. E Krauthammer pode ter se esquecido de que o outro sujeito com asas de cera voou baixo e conseguiu cruzar o mar. Seu nome era Dédalo, um inventor perfeito. É disso que os EUA precisam agora: não um orador para encantar os ouvidos, mas um político para pôr mãos à obra. Dê um passo à frente, Barack Dédalo. Sua hora chegou.

*Timothy Garton Ash, britânico, é historiador

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