Americanos temem repetição do fiasco da apuração da Flórida

Os americanos podem despertar amanhã sem saber quem controlará a Câmara e o Senado nos próximos dois anos e viver um pesadelo político parecido ao que a Flórida impôs ao país, nas eleições presidenciais de dois anos atrás, que foram decidas não pela contagem dos votos nas urnas, mas na Justiça, 34 dias depois do pleito.O pouco progresso feito na modernização dos vários sistemas de votação diferentes usados no país, e disputas apertadíssimas na briga entre democratas e republicanos por cerca de 40 das 435 cadeiras da Câmara de Representantes e de meia dúzia das 34 vagas em jogo no Senado, produziram tensões e desavenças dignas de republiquetas.Em Arkansas, onde o senador republicano Tim Hutchinson chegou à eleição empatado na pesquisa com seu desafiante democrata Mark Pryor, os conservadores acusaram seus rivais, na semana passada, de estarem trapaceando, ao não checar a identidade dos eleitores que se apresentaram nas sessões eleitorais que abriram com vários dias de antecipação, numa das muitas peculiaridades que as eleições americanas apresentam, de um Estado para o outro: em contraste com o que ocorre no Brasil, não existe uma autoridade eleitoral central, e cada município estabelece suas próprias regras. Os democratas contra-atacaram dizendo que os republicanos estão empenhados na supressão de votos de membros da minoria negra.Em Dakota do Sul, que é representado no Senado por Tom Daschle, o líder da atual maioria democrata, acusações de fraude eleitoral com o registro de eleitores, feitas pelos republicanos, foram respondidas na mesma medida pelos democratas, com alegações de que seus rivais estavam tentando impedir que os indígenas votassem. Controvérsias parecidas, envolvendo votos das minorias raciais que têm peso decisivo em eleições apertadas, repetiram-se na Carolina do Norte, Missouri e Geórgia. Nesses cinco Estados e em Minnesota, onde o ex-vice-presidente Walter Mondale assumiu a candidatura do falecido senador Wellstone faltando cinco dias para as eleições, multiplicaram-se as ações judiciais."É provável que tenhamos mais Flóridas este ano", disse Dan Gwadosky, secretário de Estado do Maine que dirige a Associação Nacional dos Secretários Estaduais. "Muito pouco se fez nos últimos dois anos (para modernizar os sistemas de votação). Há provavelmente um perigo maior nesta eleição de as pessoas terem violado o seu direito de votar, mais por causa da falta de atualização dos equipamentos e de treinamento de pessoal para trabalhar nas seções eleitorais do que por fraude". (As eleições nos EUA ocorrem num dia normal de trabalho, o que reduz o número de pessoas disponíveis para administrar as seções eleitorais.)E.J. Dionne Jr., um respeitado analista político da Fundação Brookings e colunista do Washington Post escreveu hoje que se a noite da apuração degringolasse em trocas de acusações de fraude e supressão de votos entre os dois partidos "nossa democracia ficará numa situação ainda mais angustiante do que ficou depois da Flórida".Para tornar as coisas potencialmente mais complicadas, a disputa ao senado em Louisiana pode ajudar a manter o suspense se a atual ocupante da vaga, a democrata Mary Landrieau, não conseguir superar os 50% e tiver que disputar um segundo turno com um de seus três desafiantes republicanos, no dia 7 de dezembro. Em caso de as urnas de hoje confirmarem o empate que prevalece no momento, o país terá que esperar pelo resultado da briga na Louisiana para saber quem terá a maioria no Senado.Tecnicamente, o controle do Senado continua em poder dos democratas.Mas, na verdade, eles perderam a vantagem de uma cadeira (50 contra 49) que tinham sobre os republicanos e estão agora em pé de igualdade, por causa da decisão do governador de Minnesota, Jesse Ventura, nesta semana, de nomear um independente para cumprir os dois meses finais do mandato do senador democrata Paul Wellstone, falecido na semana passada num acidente de avião.Na Câmara, a vantagem efetiva dos republicanos sobre os democratas na legislatura que está terminando é de apenas seis cadeiras.Tradicionalmente, o partido que está na Casa Branca perde espaço nas eleições que acontecem no meio do mandato do presidente da República.Além disso, os eleitores votaram para governador em 36 dos 50 estados do país. Os republicanos hoje controlam 27 executivos estaduais e os democratas, 21. O desfecho dessa votação é também importante, por causa da forte influência que os governadores têm na organização das máquinas políticas locais para as eleições presidenciais. As últimas pesquisas antes das eleições indicavam que eram maiores as chances de os republicanos conseguirem desbancar os democratas no Senado do que as de estes roubarem o controle da Câmara aos rivais. Na briga pelos executivos estaduais, os candidatos democratas pareciam bem colocados para vencer a maioria dos postos em jogo.Numa má notícia para a democracia, as pesquisas indicam, porém, a possibilidade de o pleito de hoje marcar um novo recorde de abstenção, que, em qualquer cenário, deve ficar acima de 50%.

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