Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Americanos terão dificuldade para deixar o Afeganistão; leia análise

Ordem do presidente Joe Biden de encerrar a guerra mais longa dos EUA levou a avanços rápidos do Taleban

Ben Hubbard*, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 05h00

Depois de anos vendo as forças dos EUA lutarem e morrerem em uma terra distante, o presidente apela para o crescente cansaço da guerra entre os eleitores e leva as tropas para casa. Não muito tempo depois, um grupo extremista invade áreas que os americanos haviam deixado, matando civis, tomando o poder e varrendo os esforços dos EUA de bilhões de dólares para deixar para trás uma nação estável. 

Foi o que aconteceu depois que o presidente Barack Obama retirou as forças dos EUA do Iraque em 2011: os jihadistas do grupo Estado Islâmico estabeleceram um emirado extremista, levando Washington a despachar seus militares, mais uma vez, para expulsá-los. 

O mesmo cenário é possível no Afeganistão, onde a ordem do presidente Joe Biden de encerrar a guerra mais longa dos EUA levou a avanços rápidos do Taleban, o mesmo grupo extremista que foi destituído do poder com a invasão americana após o 11 de Setembro. 

“Muitos fatores que contribuíram para a ascensão do Estado Islâmico no Iraque estão presentes no Afeganistão”, disse Harith Hasan, pesquisador do Carnegie Middle East Center, acrescentando que os congressistas seriam ingênuos em pensar que tais problemas não cruzariam as fronteiras. “Mesmo que queiram se retirar, a ascensão de forças como o Estado Islâmico, o Taleban e forças radicais capazes de desestabilizar toda a região, acabarão afetando os interesses dos EUA”, disse Hasan.

Os EUA estão envolvidos no Afeganistão desde que George W. Bush ordenou a invasão em 2001. Os líderes da Al-Qaeda e do Taleban escaparam para o vizinho Paquistão e, em 2003, os EUA anunciaram o fim das grandes operações de combate no Iraque e passaram a ajudar o Afeganistão a emergir como uma democracia.

Apesar de alguns sucessos, a corrupção no governo afegão minou o desenvolvimento e o Taleban se reconstituiu como uma força insurgente. Barack Obama aumentou e diminuiu o número de soldados e Donald Trump iniciou negociações com o Taleban. Biden anunciou a retirada, argumentando essencialmente que, se tudo o que os EUA haviam feito até agora não tivesse consertado o Afeganistão, nada o faria. “O Taleban agora pode se apresentar como o movimento islâmico que derrotou o grande Satanás, e isso terá repercussão internacional”, disse Ryan Crocker, ex-embaixador dos EUA no Iraque e no Afeganistão. 

* É JORNALISTA

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