Reprodução
Reprodução

Americanos usam apps para convencer contatos a votar em eleição legislativa

VoteWithMe e OutVote cruzam dados de bases públicas do governo com lista de telefones no celular e mostram quem votou nas últimas eleições e filiações partidárias, entre outras informações; também é possível enviar mensagens estimulando ida às urnas

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2018 | 16h17

NOVA YORK - Com a disputa nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos indefinida e tanto o Partido Democrata quando o Partido Republicano com chances de controlar a Câmara dos Deputados, convencer amigos e parentes a ir às urnas na terça-feira, 6, passou a ser uma das tarefas mais importantes entre apoiadores dos dois partidos. 

Para facilitar essa missão, vários americanos recorreram a uma série de aplicativos para celulares que têm como objetivo pressionar seus contatos a participar da disputa. Dois dos apps mais usados para essa finalidade são o VoteWithMe e o OutVote.

Disponíveis para Android e iOS, ambos cruzam dados de bases públicas do governo - apresentadas com uma interface prática e na ponta dos dedos - com sua lista de contatos para determinar quem votou nas últimas eleições e possíveis filiações partidárias, entre outras informações.

"Eu não quero que pareça que estamos tentando envergonhar nossos amigos para (forçá-los a) votar", disse Naseem Makiya, diretor executivo da OutVote, uma startup em Boston. "(Mas) acho que muitas pessoas podem ir às urnas apenas porque estão preocupadas que seus amigos descobrirão se não o fizerem."

Em quais candidatos um cidadão americano votou é uma informação secreta. Mas outros dados em seus arquivos eleitorais estaduais são públicos. Dependendo do Estado, esse arquivo pode incluir detalhes como nome, endereço, número de telefone, filiação partidária e quando eles votaram. 

A disponibilidade crescente dessas informações pode surpreender as pessoas que recebem mensagens que as incentivam a votar - ou mesmo as incomodam, expondo preferências políticas pessoais que não queriam divulgar.

Durante anos, as campanhas políticas compraram arquivos de eleitores dos Estados ou adquiriram bancos de dados nacionais de companhias que se dedicam a compilar e a vender informações, mas esses dados tinham pouca exposição a não ser o uso feito por profissionais envolvidos com as campanhas. Agora, qualquer usuário dos aplicativos pode aproveitar facilmente essas informações para fazer inferências e tentar influenciar o hábito eleitoral de seus contatos.

"Você quer usar essa pressão social gentil em torno da votação", disse Amanda Coulombe, gerente geral de organização da NGP VAN, uma empresa de tecnologia que atua na campanha dos democratas. "Mas certificando-se de que você está equilibrando isso com não enlouquecer as pessoas."

Os aplicativos também podem ter consequências não intencionais, disse Ira Rubinstein, pesquisador do Instituto de Direito da Informação da Faculdade de Direito da Universidade de Nova York, que estuda a privacidade dos eleitores.

Por um lado, ele afirma que as pessoas poderiam usar os aplicativos para criar listas de contatos de conhecidos, estranhos ou figuras públicas das quais não gostam e divulgar maliciosamente seus históricos de votação. Como um exemplo hipotético, Rubinstein disse que líderes religiosos poderiam ser expostos por se registrarem em um partido político cuja plataforma contrarie a doutrina de sua instituição.

"Não acredito que eles (apps) tenham qualquer salvaguarda para evitar que as pessoas simplesmente montem uma lista de contatos para fins mais maliciosos, obtendo essas informações e as usando para assediar ou coagir as pessoas", disse o estudioso.

As desenvolvedoras do VoteWithMe e do OutVote alegam, no entanto, que apenas democratizaram o acesso de registros que já são públicos.

Os dois aplicativos são gratuitos para o uso por pessoas físicas. O OutVote - que foi financiado no ano passado pela Y Combinator, uma conhecida stat-up de aceleração de projetos -, no entanto, também trabalha com candidatos e grupos que pagam taxas para usar o aplicativo em suas campanhas. O VoteWithMe foi desenvolvido pela New Data Project, ONG fundada por ex-membros do governo de Barack Obama.

Pesquisas do campo da ciência política mostram que as pessoas são mais suscetíveis a votar quando pensam que sua família e seus vizinhos estão observando seu comportamento cívico. Este tipo de aplicativo automatiza a vigilância e a pressão social.

"A mensagem virá de alguém que não apenas te conhece, mas sabe que você não votou da última vez", disse Mikey Dickerson, diretor executivo do New Data Project, que trabalhou como chefe do Serviço Digital dos Estados Unidos no governo Obama. "Estamos tentando projetar uma situação em que há uma expectativa social de que eles votem." / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.