Baz Ratner / Reuters
Os planos de retirada eram mais do que uma preparação real, eram uma gestão de imagem Baz Ratner / Reuters

Americanos viveram rotina de treinamentos durante a Guerra Fria

Programa mais intenso era na capital Washington, que deveria servir de exemplo para outras cidades dos EUA

Beatriz Bulla, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

WASHINGTON - A propaganda americana nos primeiros anos da Guerra Fria tinha uma missão cívica: convocar os cidadãos para treinos obrigatórios de corrida a abrigos em caso de ataque nuclear. O temor deveria ser suficiente para engajar a sociedade, mas não a ponto de fazer os americanos concluírem que não estavam a salvo em caso de uma explosão atômica.

A rotina de exercícios e construção de abrigos se espalhou pelos EUA, mas foi mais intensa em algumas cidades. Uma delas foi Washington, que deveria ser o símbolo nacional de preparação para um ataque nuclear e de um plano para que servidores federais continuassem trabalhando, mesmo no cenário mais adverso.

“Washington deveria ter o melhor programa, para servir de exemplo para as outras cidades”, afirma David Krugler, historiador e autor do livro This is only a Test: How Washington D.C. Prepared for Nuclear War (“Isso é apenas um teste: como Washington D.C. se preparou para a guerra nuclear”, em tradução livre). “Especialmente durante o governo de (Dwight) Eisenhower esses planos incluíam estabelecer locais remotos próximos da capital, mas fora do alcance de uma explosão, para que servidores federais continuassem trabalhando. E, por último, havia o sentimento de que se Washington estivesse preparada seria um sinal de que toda a nação estava preparada. Então, era útil promover Washington como local de defesa civil”, afirma Krugler.

Os planos de retirada eram mais do que uma preparação real, eram uma gestão de imagem. Em 1955, o governo americano chegou a simular um plano de retirada simultânea em 61 cidades. A primeira etapa da preparação foi por incentivo para que os cidadãos aprendessem a lidar com remédios e atuar como enfermeiros, no caso de ataque. Depois, começaram os treinamentos obrigatórios

“É importante lembrar que nos locais onde as pessoas treinavam, em Washington ou Nova York, não havia chance de sobreviver a um ataque nuclear da União Soviética. Mas as pessoas eram convocadas a fazer esse tipo de treinamento”, explica o historiador.

Em Washington, havia simulação para civis e outra para servidores do governo, que treinavam a ida a abrigos. “Era uma forma de mostrar que o governo estava preparado para uma guerra, ainda que não desejasse que isso acontecesse. A ideia era a de que, se a União Soviética soubesse que estávamos preparados, poderia se tornar menos propensa a atacar”, diz Krugler.

Para ele, Eisenhower sabia das falhas nos planos de proteção da sociedade civil. “Por isso ele escreveu o quão assustadora a possibilidade de uma guerra nuclear era, que a única forma de sobreviver era nunca se envolver em uma.”

No início dos anos 60, espalhou-se nos EUA a ideia de abrigos contra os efeitos radioativos. “Tenho certeza de que nenhuma cidade nos EUA manteve o programa de abrigos depois dos anos 70”, afirma. Parte dos locais, com mantimentos para que famílias fossem capazes de permanecer por algum tempo, sobrevivem até hoje, abandonados. Embaixo de uma escola no bairro de Adams Morgan, em Washington, um abrigo permanece intacto, ao fim de um longo corredor de concreto, no porão do prédio. “É tão difícil chegar até ele que os mantimentos foram deixados lá”, afirma o pesquisador.

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