Américas: as terras do excesso de cúpulas

Em vez de optar por reuniões que quase nunca resultam em decisões relevantes, acordos mais restritos ou bilaterais deveriam predominar

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h05

Com a viagem do presidente Barack Obama a Cartagena, para a 6.ª Cúpula das Américas, observadores e jornalistas se perguntam o que seu governo fez na região desde o último encontro desse tipo em Trinidad e Tobago, em 2009. É uma boa pergunta, mas as resoluções vagas e inconsequentes alcançadas nessas cúpulas são um péssimo parâmetro para se usar.

Se o número de reuniões fosse uma medida da qualidade da diplomacia, a América Latina seria uma utopia de harmonia, cooperação e entendimento.

Aliás, o continente americano é um forte candidato ao título de capital mundial das cúpulas com, pela última contagem, mais de 16 fóruns, associações e organizações multilaterais regionais - que incluem a Aliança Bolivariana das Américas (Alba), a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), a Cúpula Ibero-Americana, a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), além da velha e frequentemente caluniada Organização dos Estados Americanos (OEA), para não falar de sua nova desafiante regional, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

Evidentemente, a atividade real de diplomacia e o fechamento de acordos ocorrem em reuniões menores de países ou bilateralmente, entre governos que têm uma genuína unidade de propósitos e de interesses nacionais.

São essas reuniões menores - não a pompa e a mediocridade das reuniões de cúpula aparentemente intermináveis de chefes de Estado se juntando para uma foto de ocasião - que definem as verdadeiras relações (e interesses) no continente.

A participação de Obama nessas cúpulas com certeza oferece um marco conveniente para se examinar a política de seu governo para a América Latina. Em abril de 2009, apenas três meses após sua posse e ainda em meio ao impacto global da sua eleição, Obama viajou para a 5.ª Cúpula das Américas para se reunir com todo os chefes de Estado eleitos na região. Agora, enfrentando uma campanha de reeleição três anos depois, Obama volta não só a uma região econômica e diplomaticamente mais fortalecida, mas também às queixas de comentaristas e jornalistas locais de que os EUA não dão suficiente atenção a ela.

Isso pode ser uma acusação justa, em geral, mas o presidente poderia ser perdoado por não levar muito a sério reuniões como a deste fim de semana. A verdade é que há poucas áreas de interesse comum e prático que alinhem os 34 Estados participantes na Cúpula das Américas além da proximidade geográfica.

O encontro original em Miami, em 1994, foi convocado para reunir os chefes de Estado eleitos na região para discutir dois tópicos urgentes: comércio e democracia. Sobre o primeiro tema, o objetivo era criar um acordo de comércio de âmbito continental, um sonho que se desfez há muito tempo. E o último, com muita frequência é desviado por escaramuças diversionistas como na decisão deste ano do presidente equatoriano Rafael Correa de boicotar a cúpula porque o governo de Cuba não foi convidado.

Desgaste. A deterioração da multiplicidade de cúpulas americanas em uma plataforma de demagogia fácil em detrimento de discussões sérias ficou evidente, pela primeira vez, na 4.ª Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata, Argentina, em outubro de 2005. Foi lá que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o então líder do sindicato dos plantadores de coca bolivianos, Evo Morales, que logo depois se tornou presidente da Bolívia, com apoio do anfitrião, o então presidente argentino Néstor Kirchner, organizaram uma cúpula alternativa, num estádio de futebol próximo. Junto com a lenda do esporte Diego Maradona, bizarramente, o grupo denunciou o livre comércio, os alimentos geneticamente modificados, a política antidrogas americana e o imperialismo ianque.

O fato de esses três dirigentes esquerdistas latinos serem apenas uma ínfima minoria do encontro não pareceu pesar.

Apesar de a maioria dos outros países ali reunidos repetirem seu compromisso com o livre comércio e a democracia, foi o circo montado por Chávez que ficou na história daquela cúpula. A marca de pontuação mais adequada para a pompa e populismo foi quando o presidente americano, George W. Bush, viajou em seguida para uma reunião de trabalho com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, na qual o conservador do Texas e o ex-líder sindical de esquerda chegaram a um entendimento e concordaram em colaborar numa série de iniciativas, entre elas a redução de barreiras comerciais entre os dois países.

Lengalenga. A divisão regional - mais do que pontos de acordo - esteve de novo no centro a discussão na cúpula de 2009, em Trinidad e Tobago. Antes da primeira grande investida de Obama na diplomacia latino-americana, muitos esperavam que o poder de sua presença pudesse ajudar a curar velhas feridas. Depois que Obama fez um poderoso discurso sobre não reviver a história e as batalhas passadas e sobre iniciar uma nova era de parceria, Chávez aproximou-se furtivamente do presidente americano e entregou-lhe um exemplar de um livro de um dos mais venerados teóricos latino-americanos da conspiração, Eduardo Galeano, que escreveu a clássica lengalenga contra a exploração pelo mundo desenvolvido e a vitimização da região: As Veias Abertas da América Latina, lida e devorada por estudantes universitários da América Latina nos anos 70 e 80. Não estranha que essa ficou sendo a história da cúpula.

Alguém consegue se lembrar do que os países acertaram na reunião ou se eles o cumpriram? Eu acompanho a política latino-americana há anos e não consigo.

Afora a importância questionável da vizinhança e dos laços atenuados de governos democraticamente eleitos, esses eventos de alto nível e larga escala valerão realmente o investimento em recursos burocráticos, o tempo dos presidentes, e a atenção da mídia? Evidentemente, ao receber o evento deste ano, o presidente Juan Manuel Santos, da Colômbia, poderá mostrar como seu país avançou desde as guerras civis que levaram a Colômbia à beira da falência do Estado há apenas 20 anos. Mas seria preciso montar uma reunião de 34 chefes de Estado para isso?

Quando se pensa em cúpulas em outras regiões, todas elas têm uma certa lógica econômica ou estratégica que conduz, por si, a uma agenda mais concreta.

Seja o G-20, a União Europeia, ou a Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec), as reuniões regulares de chefes de Estado desses grupos discutem interesses econômicos e diplomáticos que eles podem avançar - e afetar. Precisamente porque esses países-membros estão unidos por um interesse comum e esses encontros, vistos como reuniões sérias, nunca seriam vítimas do tipo de atos grotescos e simbolismo vazio que marcaram as duas últimas Cúpulas das Américas. Houve, com certeza, momentos embaraçosos de chefes de Estado realizando esquetes nada engraçados nas reuniões da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e o hábito felizmente extinto de usar trajes locais do país anfitrião na Cúpula da Apec, mas esses nunca foram claramente a principal intenção ou concessão.

Acordos bilaterais. Ironicamente, o anfitrião deste ano foi o país que melhor reconheceu a maior importância da construção de pontes bilaterais, em vez de fóruns multilaterais, pretenciosos, forçados. Com um recém-assinado acordo de livre comércio com os EUA e a série de viagens diplomáticas, acordos bilaterais de comércio e melhora de relações com vizinhos de Santos, a Colômbia tornou-se um modelo regional de como fazer as coisas progredirem.

Outro exemplo ocorreu no fim de março com as reuniões de Obama com o presidente Felipe Calderón, do México, e o premiê Stephen Harper, do Canadá, no qual os líderes se comprometeram conjuntamente em harmonizar regulamentos para fortalecer os laços comerciais, melhorar os laços de segurança e apoiar a entrada do México nas negociações lideradas pelos EUA para o bloco de comércio Trans-Pacific Partnership (TPP), com Austrália, Brunei, Chile, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã. Mesmo as tensões evidentes nos discursos entre Calderón e Obama a respeito da política antidrogas americana e sua falta de disposição para pressionar por uma nova proibição à venda de armas pesadas são sinais de relações construtivas, maduras, entre dois países com um objetivo comum.

Um contraponto semelhante ocorreu no início da semana passada quando a presidente brasileira, Dilma Rousseff, viajou a Washington. Na agenda estava a questão de como os dois países poderiam facilitar investimentos comerciais, expandir intercâmbios educacionais e melhorar os laços em energia.

Em razão da desconfiança do governo brasileiro com os EUA, não foi surpresa não terem saído acordos bilaterais concretos das discussões. Mas esses pontos de discussão são bem mais concretos e realizáveis que o festival regional de abraços presidenciais de dois dias que ocorre neste fim de semana.

O governo Obama poderia ter dado mais atenção à região nos três anos que separam a cúpula de Trinidad e Tobago e a de Cartagena? Com certeza.

Mas a medida do que ele deveria ter feito está no conteúdo. Há muito que o governo americano deveria ter coordenado um apoio regional para a segurança da América Central, uma região que está sendo assolada e derrotada por sindicatos criminosos; Washington deveria ter acelerado seus esforços para criar um bloco econômico transregional para se contrapor à intrusão da China no continente; e já deveria estar trabalhando intensamente com países vizinhos para ajudar a garantir eleições livres e limpas na Venezuela, seja qual for seu desfecho.

Essas são questões reais que pesam no futuro do continente. Mas nenhuma delas saiu da última cúpula. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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