Albert Gea/REUTERS
Albert Gea/REUTERS

De onde vêm as bandeiras do Império Espanhol tremulando no Peru?

Virada ao nacionalismo traz de volta símbolos da colonização

Andrea Moncada, Americas Quarterly, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 10h00
Atualizado 26 de outubro de 2021 | 14h28

Desde junho, os peruanos têm se deparado com uma visão incomum nas ruas de Lima: grupos de pessoas ostentando uma bandeira que carrega um símbolo pouco conhecido, chamado de Cruz de Borgonha — que apareceu inicialmente nos protestos pós-eleitorais contra uma suposta fraude na eleição do atual presidente, Pedro Castillo, e seu partido, Perú Libre.

Mais recentemente, em 12 de outubro, data em que são celebrados tanto o “Dia da Hispanidade”, na Espanha, quando o Dia dos Povos Originários e do Diálogo Intercultural, no Peru, a Sociedade Patriota do Peru levantou essa bandeira diante da estátua de Cristóvão Colombo instalada no centro histórico de Lima. O grupo alegou estar protegendo a estátua de manifestantes contrários ao legado do colonialismo e à violência perpetrada durante a conquista espanhola dos povos indígenas.  

A Cruz de Borgonha — um símbolo que homenageia a monarquia espanhola e a “cruzada civilizacional” que o país praticou em suas ex-colônias — não é uma imagem comum na sociedade ou na política do Peru. Sua súbita aparição deixou muita gente apreensiva, especialmente considerando a maneira que o legado da colonização tem sido questionado e criticado em muitos países latino-americanos nos anos recentes, incluindo no Peru.

Em 2019, o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, provocou comoção ao enviar cartas ao rei Felipe VI, da Espanha, e ao papa Francisco pedindo que eles pedissem desculpas pelas atrocidades cometidas contra os povos indígenas durante a conquista das Américas. E em sua cerimônia de posse como presidente, em julho, Pedro Castillo prometeu “romper com os símbolos coloniais” e criticou a exploração por parte da Espanha dos recursos minerais peruanos durante o período colonial — diante do rei espanhol, Felipe VI, que havia comparecido à cerimônia.

A súbita aparição desse símbolo indica uma mudança interna nos partidos de direita peruanos: eles estão adotando um discurso nacionalista que enfatiza a herança espanhola em seu país, o catolicismo e os laços com a Península Ibérica. A líder do partido conservador Fuerza Popular, Keiko Fujimori, participou recentemente de um evento chamado Viva 21, organizado pelo partido de extrema direita espanhol Vox com o intuito de “enriquecer a cultura espanhola”.

Fujimori qualificou o evento como um “símbolo da unidade hispânica contra o socialismo do século 21” e afirmou que compartilha de suas visões em defesa da vida e da família. Três congressistas do Avanza País, partido do economista conservador Hernando de Soto, assinaram a Carta de Madri, um documento patrocinado pelo Vox que alega unir a “iberosfera" contra a ameaça global do comunismo. Outro grupo de parlamentares, do partido Renovación Popular, liderado por Rafael López Aliaga, também se reuniu com representantes do Vox em Lima, em setembro. 

Esse tempero particular de nacionalismo teve pouca influência sobre a história recente do Peru. Nos anos 1970, por exemplo, o regime autoritário do general Velasco — apesar de fortemente nacionalista — ressaltava o passado inca do país e suas raízes indígenas. As políticas econômicas neoliberais implementadas nos anos 1990 enfraqueceram muitos movimentos sociais, incluindo os partidos políticos, erodindo sua capacidade de construir qualquer tipo de plataforma identitária forte.

A única crença definidora dentro dos principais partidos peruanos tem sido o consenso de que o investimento estrangeiro, o livre-comércio e os mercados abertos são a única receita aceitável para o crescimento e o progresso. O discurso anticomunista já era aguardado para depois da eleição do esquerdista Castillo. Mais inesperada — e indicativo de um processo de radicalização — é a movimentação da direita peruana para além da defesa de seu modelo econômico, passando a definir sua oposição contra Castillo como uma luta existencial por liberdade e identidade nacional. 

A evidente ascensão do nacionalismo no Peru não ocorre isoladamente na América Latina e é compreendida mais facilmente como parte de uma onda de sentimento ultradireitista na região. Apoiadores dessa tendência argumentam estar enfrentando as ameaças do comunismo e do indigenismo. Muitas figuras políticas proeminentes, incluindo Eduardo Bolsonaro, filho do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro; os ex-presidentes colombianos Andrés Pastrana e Álvaro Uribe; e o político chileno José Antonio Kast, participaram de eventos organizados pelo Vox, um partido indubitavelmente racista, nativista e xenófobo, que se esforça atualmente para unir os setores mais conservadores da América Latina em uma ofensiva contra contra o “globalismo” e a esquerda. 

Defrontada pela presidência de Castillo, a direita peruana decidiu se unir a esse movimento cultural. Grupos conservadores podem estar esperando conquistar novos eleitores com essa nova estratégia, emulando o Vox, que num período de poucos anos passou de uma minoria extremista da política da Espanha para o terceiro maior partido no Parlamento do país.

Ainda que suas visões sejam consideradas reprováveis por muitos, elas claramente ressoaram entre um setor da população espanhola, e é provável que os partidos de direita peruanos esperem obter um sucesso similar. Keiko Fujimori e outros políticos acreditarem verdadeiramente ou não no legado cultural da Espanha não é tão importante quanto sua convicção de que essa afirmação é uma estratégia vitoriosa — que eles estão inclinados a continuar perseguindo. Sua decisão em fazê-lo continuará a erodir as fundações da já instável democracia do Peru. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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