Elvis González/EFE
Elvis González/EFE

Americas Quarterly: 'O que sabemos a respeito de Gabriel Boric'

O próximo presidente chileno representa algo novo na América Latina, um verdadeiro câmbio geracional. Se ele será bem-sucedido ou não é outra questão

Brian Winter*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 05h00

A Americas Society e o Council of the Americas, as organizações-irmãs que publicam a Americas Quarterly, têm como sede uma grandiosa mansão da década de 1910, localizada na Park Avenue, em Nova York. O espaço é revestido de mármore italiano e repleto de sinuosas escadarias, exibe um Botero original, de Cristo com a coroa de espinhos, e ostenta espelhos com molduras douradas nas paredes. Tudo isso contribui para um ambiente formal, cuja regra de vestimenta costuma ser com frequência ternos escuros e gravatas.

Então, posso dizer com alguma certeza que, quando recebemos Gabriel Boric para um singelo café da manhã, em 2018, ele foi o primeiro o primeiro convidado de honra em todos os tempos a aparecer vestindo calça jeans e uma camiseta preta da banda grunge Nirvana

Fiquei surpreso? Nem um pouco. Eu havia me encontrado com Boric pela primeira vez poucos meses antes, na cafeteria do Congresso chileno, entrevistando-o para um artigo a respeito do grupo de vinte e tantos ex-líderes estudantis de protestos que haviam tomado a incomum decisão de concorrer a cargos eletivos. Em seu primeiro dia no Congresso, Boric vestia sobretudo, camisa social e não usava gravata — o que ocasionou urros de protesto de legisladores mais veteranos. “Não me importo nem um pouco”, afirmou ele a repórteres na ocasião. “Quero que as pessoas me julguem por meu trabalho e convicções, não pelo meu senso de moda.” Mas quando estive pessoalmente com Boric, ele não me pareceu um tipo provocador cuspidor de fogo — ele foi sensível, humilde e, acima de tudo, um formidável ouvinte, ao expressar respeito por quão surpreendentemente “exaustivo" o trabalho legislativo se mostrou. Logo nos entendemos — e mantivemos uma relação calorosa, principalmente por meio do WhatsApp, nos anos subsequentes.

Boric enfrentará agora uma das mais desafiadoras presidências na história recente da América Latina, depois de vencer a eleição do domingo por uma margem de 11 pontos, maior do que a esperada. Aos 35 anos, ele representa uma geração mais jovem de chilenos desesperadamente ávidos por viver em um país mais parecido com Suécia ou França, mas sem estar totalmente certos a respeito da maneira como chegar lá. Não está claro para ninguém — e suspeito que nem para o próprio Boric — se ele conseguirá ou não administrar as estratosféricas expectativas engendradas pelo movimento de protesto dos últimos anos ao mesmo tempo que supervisiona a aprovação da nova Constituição e garante mais bem-estar social sem alienar completamente o establishment nem extinguir  o dinamismo econômico que fizeram do Chile essa imperfeita história de sucesso nas últimas três décadas. Mas tenho algumas histórias e observações que podem ajudar a compreender o quadro.

A primeira tem a ver com as escolhas de moda de Boric e as verdades mais profundas elas podem revelar a respeito de sua evolução nos meses recentes. Quando Boric chegou à sede de AS/COA usando aquela camiseta preta, em 2018, ele pareceu um pouco surpreso com a decoração — e perguntou quem estaria presente no café da manhã. Uma mescla de líderes empresariais, acadêmicos e representantes da sociedade civil, respondi. “Ah, o pessoal da direita (ideológica)”, afirmou ele, cerrando os olhos levemente. Reconheci que sim, alguns deles eram de direita, mas estavam aqui para escutar. E realmente, nos 90 minutos que se seguiram, tivemos um debate relaxado e vívido. “Foi bom”, declarou Boric quando deixava o local. “Os empresários daqui não são como os empresários do Chile.”

O tipo de visão de mundo 'nós contra eles' é bem comum no Chile — e tem representado, em certos aspectos, a essência do apelo de Boric. Os protestos que sacudiram o país a partir de 2019 ascenderam para uma sonora exigência de que a notoriamente insular e historicamente antidemocrática elite chilena compartilhe seus privilégios e pague significativamente mais impostos. Com declarações como, “Se o Chile foi o berço do neoliberalismo, também será seu túmulo”, e sim, suas tatuagens e seu guarda-roupa não conformista, Boric alinhou-se completamente a esses clamores por mudanças profundas. Mas à medida que a campanha progrediu, especialmente durante a disputa em segundo turno, Boric também pareceu dar-se conta de que não conseguiria vencer sem pelo menos algum apoio do establishment. E buscou apoio de políticos veteranos, como Michelle Bachelet, e dos democrata-cristãos, para quem notavelmente se desculpou pela “arrogância geracional” de seu partido. Boric também trocou de roupa — evitando ainda as gravatas, mas adotando ternos escuros e camisas sociais, um aceno claro para os eleitores mais conservadores.

Mas e daí? Isso realmente significa algo? Sim, penso que sim. A campanha de Boric revisou sua plataforma econômica múltiplas vezes nos meses recentes, ao trazer conselheiros como Lucia Dammert e Eduardo Engel, que estão entre os mais respeitados economistas de centro-esquerda. Minha impressão é que, como muitos progressistas millennials da Europa e dos Estados Unidos, Boric é mais pessoalmente interessado em temas como mudanças climáticas, igualdade de gênero e direitos de povos indígenas do que nas clássicas questões de redistribuição de riqueza que cativaram as paixões da esquerda do século 20. Boric também pareceu incomumente consciente — e sincero — a respeito do que não não conhece; ele nos disse em 2018 que pretendia algum dia estudar economia em alguma universidade no exterior. Isso sugere que ele empregará conselheiros inteligentes e lhes dará ouvidos. Mas se ele conseguirá ou não superar seu reflexo de  desconfiança em relação à classe empresarial — e a desconfiança do setor em relação a ele — é uma questão em aberto. Depois de ver bilhões de dólares saindo do Chile nos meses recentes, o que baixou o valor do peso em quase 20%, e o mercado de ações despencar mais 10% na segunda-feira seguinte à sua vitória, não estou certo de que o país será capaz de se sair bem, a não ser que Boric e os empresários alcancem algum tipo de entendimento — e logo.

Em outras áreas, estou mais otimista. As comparações que alguns na direita fizeram entre Boric e autocratas esquerdistas como Nicolás Maduro são absurdas — na realidade, Boric qualificou as recentes eleições fraudulentas na Nicarágua como uma “farsa", expressou apoio a dissidentes cubanos e “convidou" publicamente seus parceiros de coalizão de extrema esquerda a considerar posições mais conciliadoras. Na outra ponta do espectro, ouvi alguns estabelecerem similaridades entre Boric e o outro presidente latino-americano millennial e barbudo que usa boné, Nayib Bukele. Mas não percebi nem remotamente nada de messiânico em Boric, que enfatiza palavras como “diálogo” e “consenso" — que parecem fora do vocabulário do líder salvadorenho. A tradição do Chile como uma das mais fortes democracias latino-americanas, reafirmada novamente neste domingo, está em boas mãos.

Boric será bem-sucedido?

Para ser honesto, não tenho certeza se qualquer um seria capaz disso. O próximo presidente do Chile terá de atender às exigências da sociedade por um Estado mais em estilo escandinavo, sem afastar do país o grande capital e os investimentos necessários para pagar por isso. Boric terá de preservar de alguns aspectos do modelo econômico que não apenas permitiu ao Chile crescer, mas deu ao país os melhores indicadores sociais e de pobreza na região ao longo dos últimos 30 anos, ao mesmo tempo em que cria um novo sistema previdenciário e garante educação e assistência médica mais acessíveis para a população. Boric terá de aplacar seus parceiros mais radicais de coalizão (incluindo comunistas de verdade) e o atual movimento de protestos violentos, enquanto trabalha com uma Assembleia Constituinte que se situa mais à esquerda do que a população chilena em geral. Minha impressão é que a inesperadamente grande margem de Boric na vitória do domingo poderá se provar um fator negativo, reduzindo a pressão sobre ele e outros para buscar consenso. Mas eu, assim como outras milhões de pessoas, ouvi seu esperançoso discurso de vitória na noite do domingo e escutei suas promessas de abraçar inclusão social, responsabilidade fiscal e “ir adiante dando pequenos passos, mas passos firmes, aprendendo com a nossa história”.

“Saibam que, em mim, vocês encontrarão um presidente aberto para ouvir e incorporar diferentes visões e que também será receptivo às críticas construtivas que nos ajudam a melhorar”, declarou ele diante de uma multidão de admiradores. “Recebo este mandato com humildade.”

Parecia o Gabriel Boric que conheci e admiro. Desejo a ele tudo de bom.

*É editor-chefe da Americas Quarterly e vice-presidente para políticas de  Americas Society/Council of the Americas. Autor de best-sellers, analista e palestrante,  Brian vive e respira política latino-americana há 20 anos.

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