Bloomberg photo by Vicho Gaibor
Bloomberg photo by Vicho Gaibor

Americas Quarterly: Os altos e baixos de Guillermo Lasso

O presidente do Equador pretende mudar o rumo de seu país. Seu sucesso resistirá às revelações a respeito de suas transações offshore e a um Parlamento hostil?

Sebastián Hurtado*, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 05h00

QUITO – No mês passado, o presidente do Equador, Guillermo Lasso, escancarou diante da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York, uma fervilhante defesa do internacionalismo e de uma governança aberta e democrática num momento em que políticas fechadas e nacionalistas ganham terreno por todo o planeta.

Semanas depois, porém, revelações dos Pandora Papers ameaçaram manchar sua reputação, com provas de que ele participou de transações offshore. Lasso sustenta que seu envolvimento com esse tipo de negócio acabou depois da aprovação de uma lei no Equador, em 2017, restringindo que políticos mantenham contas no exterior. Depois do período de altos e baixos, como Lasso se situa neste momento?

A eleição de Lasso, em abril, como primeiro presidente de centro direita em mais de 20 anos no Equador, rompeu um duradouro e tumultuado ciclo de alternância de poder no país entre líderes populistas de esquerda e de direita. Muitos observadores — incluindo eu mesmo — estavam céticos a respeito das chances dele vencer as eleições por várias razões.

O sentimento antielite no Equador, ultimamente exacerbado por uma elevação nos índices de desigualdade, não colabora com Lasso, nem seu passado como banqueiro proeminente e suas crenças econômicas neoliberais — seu plano de governo lançado recentemente cita de Ayn Rand a Milton Friedman. Em muitos países capitalistas convictos, Lasso poderia experimentar resistência a respeito dessas questões em face à pandemia. E de maneira especial no Equador, que resistiu de forma incomum na região à onda neoliberal dos anos 1990. Finalmente, seu conservadorismo social (Lasso opõe-se pessoalmente ao aborto mesmo em casos de estupro) está ficando ultrapassado, num um país onde ideias sociais liberais finalmente ganham algum impulso.

Mesmo assim, após perder eleições presidenciais em 2013 e 2017, a terceira tentativa de Lasso em busca do mandato funcionou. Sua vitória deleitou investidores locais e estrangeiros, conforme indicado pela significativa queda do risco-Equador que se seguiu à eleição. O índice de risco no país continuou baixo desde então, graças a vários passos tranquilizadores do governo. Lasso nomeou um gabinete tecnocrata, próximo ao empresariado, facilitando um diálogo regular entre o governo e o setor privado. Ele apresentou um plano de governo concentrado em reduzir a intervenção do Estado, abrir várias indústrias e mercados para a competição e promover parcerias público-privadas.

Ele abordou a comunidade internacional de forma pragmática, tratando com governos da China à Rússia e aos Estados Unidos de assuntos variados, de vacinas a comércio. E conquistou importantes vitórias, como a bem-sucedida renegociação com o FMI de um acordo mais flexível. Investidores passaram a olhar para o Equador com interesse renovado, especialmente em contraste à crescente agitação em outros países andinos tradicionalmente mais amigáveis aos negócios.

Até agora, Lasso tem andado na corda-bamba, dando passos para melhorar o ambiente de negócios sem alienar a maioria centrista e esquerdista do Equador. Sua popularidade se ampliou para além de sua base política tradicional graças a uma campanha de vacinação extremamente bem-sucedida, que imunizou mais da metade da população de 17 milhões de habitantes do país em 100 dias. Também o beneficia: uma retomada econômica que se seguiu à suspensão de restrições domésticas em razão da covid-19 e seus pedidos por reformas de instituições políticas desacreditadas. O resultado? Lasso desfruta atualmente de uma estratosférica taxa de 70% de aprovação, de acordo com várias pesquisas locais.

Não obstante, o primeiro teste real ainda o espera. A expectativa para seus primeiros meses de governo sempre foi de uma lua-de-mel política, especialmente após o muito menos competente governo de Lenín Moreno. O banco central equatoriano ainda projeta apenas 3% de crescimento este ano, depois de uma contração de 8% na economia aumentar os índices de pobreza em 2020. Dois terços dos trabalhadores do país estão subempregados, o índice de crime está em elevação, e houve uma alta significativa na migração ilegal para os EUA.

Os equatorianos têm grandes expectativas de que o governo Lasso consiga reverter o declínio no padrão de vida ocorrido durante a pandemia e após anos de estagnação econômica durante a presidência de Moreno e os anos finais do mandato de seu antecessor, Rafael Correa. Contudo, o remédio de Lasso para as agruras econômicas — especificamente as reformas liberalizantes — enfrentam significativa oposição política tanto no Congresso, dominado pela esquerda, quanto entre grupos da sociedade civil, como o movimento indígena, e até na sociedade como um todo, incluindo entre aqueles acabaram votando no ex-banqueiro.

A agenda de Lasso para reforma econômica, elemento-chave de seu plano para transformar o país, ainda deverá ser debatida no Congresso. O Executivo submeteu recentemente uma nova “mega-lei" tributária, trabalhista e de investimentos à legislatura, que foi rejeitada absolutamente antes de ser votada. Mesmo que a legislatura ainda possa aprovar uma versão diluída das reformas tributárias de Lasso, que miram os mais ricos, mudanças mais significativas para flexibilizar regras de contratação e o setor extrativista enfrentam forte resistência.

Isso fez o governo de Lasso considerar alternativas — consultar o povo diretamente a respeito de reformas por meio de um referendo com várias perguntas, por exemplo, ou convocar novas eleições presidenciais e legislativas na esperança de Lasso se reeleger juntamente com uma base aliada maior no Congresso. Entretanto, não há garantias de que os eleitores apoiarão essas manobras, especialmente considerando que Lasso ainda não construiu uma narrativa política clara em torno do que a transformação que ele propõe significaria para a maioria dos equatorianos.

O público, agora vacinado, está voltando sua atenção para outros problemas que pressionam a sociedade. Além disso, eventos recentes, como o massacre ocorrido na maior prisão do Equador e a investigação a respeito das transações offshore de Lasso, enfraqueceram em certa medida a reputação de competência do governo e suas credenciais reformistas. É difícil menosprezar a magnitude dos desafios que Lasso encara para transformar o Equador. Contudo, ele já tirou alguns coelhos da cartola. Vejamos se ele será capaz de surpreender novamente./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Hurtado é presidente e fundador da consultoria de risco político PRoFITAS, com base em Quito

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.