Amia condena pacto para Irã interrogar suspeitos de atentado

Para presidente de associação israelita, a Justiça argentina deve, sozinha, levar o caso adiante

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2013 | 02h02

O presidente da Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), Guillermo Borger, declarou ontem que é "inconstitucional" o pacto fechado no domingo entre os governos da Argentina e do Irã para interrogar em Teerã os iranianos acusados de terem organizado o atentado contra a organização em 1994 em pleno centro de Buenos Aires. Os acusados, que eram integrantes do governo iraniano na época, são buscados pela Interpol, a pedido da Justiça argentina, desde 2006. No entanto, o governo de Teerã rejeita entregá-los.

A Justiça em Buenos Aires os acusa de terem organizado o atentado que deixou 85 mortos e mais de 300 feridos. Até o momento, nenhum responsável pelo ataque terrorista foi detido e condenado.

Nas negociações com Teerã, realizadas sigilosamente em Zurique, Suíça, nos últimos meses, a Argentina cedeu perante a exigência do Irã de realizar os interrogatórios dos iranianos acusados em Teerã.

"No caso Amia deve agir somente a Justiça argentina", disse Borger, que também criticou a forma como a presidente Cristina celebrou pelo Twitter a decisão argentino-iraniana de criar uma "comissão da verdade", formada por juristas internacionais, para investigar o atentado. "Colocar o nome de comissão da verdade é ignorar tudo o que a Justiça argentina fez", sustentou Borger. Segundo ele, a comunidade judaica "confia plenamente no trabalho que a Justiça argentina está fazendo. O Irã não é um interlocutor válido".

Em um comunicado conjunto, a Amia e a Delegação das Associações Israelitas-Argentinas (o braço político da comunidade), ressaltaram que "essa comissão da verdade não está contemplada pelas leis argentinas e implicaria uma perda da soberania".

O Congresso Judaico Americano criticou a decisão do governo argentino, afirmando que teria sido como pedir à Alemanha nazista colaboração para determinar os fatos dos crimes contra os judeus durante o Terceiro Reich. "É uma ofensa para todas as famílias das vítimas e para toda a Argentina", declarou o líder da organização, David Harris.

Israel também criticou o acordo: "Sempre alertamos que o Irã tentaria aplicar uma armadilha". Segundo o porta-voz da chancelaria israelense, Yigal Palmor, Israel espera explicações do chanceler argentino, Héctor Timerman.

Série de ataques. Em 17 de março de 1992, uma caminhonete Ford-100 carregada de explosivos, dirigida por um suicida, estacionou na frente da embaixada de Israel. Segundos depois, uma explosão destruiu totalmente o velho palacete Lastra, além de arrasar a fachada da escola primária Maters Admirabilis e a residência geriátrica que estavam na calçada da frente.

O cogumelo de fumaça da explosão - a apenas 20 quarteirões da Casa Rosada, o palácio presidencial - foi visto de vários pontos da cidade. Um total de 29 pessoas morreram e 240 ficaram feridas.

Dois anos depois, em 18 de julho de 1994, outro atentado destruiu a sede da Amia, matando 85 pessoas.

Nenhum grupo assumiu a autoria dos dois atentados. Mas a Justiça argentina suspeita que o governo do Irã estaria por trás da organização dos ataques, em conjunto com o Hezbollah e uma conexão argentina, hipoteticamente formada por policiais e membros do grupo caras-pintadas (militares que realizaram várias rebeliões nos anos 80), famosos por seu antissemitismo.

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