Bulent Kilic / AFP
Bulent Kilic / AFP

Amigos e noiva de Khashoggi homenageiam jornalista em frente ao consulado saudita

Monumento foi colocado em um jardim em frente ao Consulado da Arábia Saudita em Istambul, onde o jornalista foi assassinado no ano passado

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2019 | 20h19
Atualizado 03 de outubro de 2019 | 16h07

ISTAMBUL - Um memorial em homenagem ao jornalista Jamal Khashoggi, assassinado no Consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, foi realizado do lado de fora do consulado nesta quarta-feira, 2, marcando um ano da sua morte. Ao fim da cerimônia, uma estela, pequeno monumento de pedra branca, foi revelado no jardim em frente ao local, com o nome de Khashoggi, sua data de nascimento e o dia em que ele morreu. 

Na cerimônia, a vida e o legado de Khashoggi foram celebrados por amigos, colegas e apoiadores, incluindo exilados políticos árabes, aos quais ele se juntou com relutância. Entre outros presentes estavam sua noiva, Hatice Cengiz, que esperou do lado de fora do consulado, aguardando inutilmente que Khashoggi surgisse; Jeff Bezos, dono do Washington Post, onde Khashoggi trabalhava como colunista colaborador; Frederick J. Ryan Jr., diretor executivo do jornal; e Agnés Callamard, investigadora de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que escreveu o mais completo relato até hoje sobre a morte de Khashoggi. 

Família de Khashoggi não estava presente 

Nenhum dos parentes sauditas de Khashoggi foram ao memorial, incluindo seus filhos - o que era esperado. O assassinato de Khashoggi agravou disputas entre a Arábia Saudita e a Turquia e viajar ao memorial em Istambul seria escolher um lado nessa disputa, algo que nenhum cidadão saudita poderia se dar ao luxo de fazer. 

Salah Khashoggi, filho de Jamal que mora na Arábia Saudita, alertou em um post no Twitter na segunda-feira, 30, que os "oponentes e inimigos" do reino estavam explorando a morte de seu pai. Ele acrescentou que tem "confiança absoluta" no judiciário saudita para processar os assassinos. 

Participantes da cerimônia pediram justiça    

Durante a cerimônia, um orador, David Hearst, pediu silêncio para marcar a ocasião. E então participantes começaram a gritar: por justiça, pela memória de Khashoggi, para que sua morte ressoasse e por aqueles cujas mortes, desaparecimentos ou aprisionamentos não foram notados. 

A cerimônia começou com as palavras do próprio Khashoggi, em um vídeo transmitido em uma tela atrás do palco, expressando pedidos que eram rotineiros e impossíveis. 

"Eu tenho 60 anos", disse o jornalista saudita na gravação. "Eu quero aproveitar a vida e eu quero ser livre para falar pelo meu país". 

O país, a Arábia Saudita, não tinha representantes no palco da cerimônia, que abrigava um coro de seus críticos. Seria estranho se alguém tivesse sido convidado, de acordo com o Post. Agentes do governo saudita são acusados de ter matado Khashoggi naquela terça-feira do ano passado, de ter desmembrado seu corpo e de ter escondido seus restos mortais, que nunca foram encontrados. 

Os agentes teriam sido enviados por oficiais sauditas de alto escalão, convencidos de que as palavras de Khashoggi, escritas em colunas para o Post, eram uma grave ameaça ao Estado. Os oficiais trabalhavam para o príncipe herdeiro e homem forte da Arábia Saudita  Mohammed bin Salman, que, de acordo com a CIA e com outras agências de inteligência, quase certamente autorizou o assassinato. O príncipe nega firmemente.  "Absolutamente não" foi a resposta de Mohammed quando perguntado recentemente se ele havia ordenado a morte de Khashoggi. 

Especialista em direitos humanos fez apelo a jornalistas 

Agnés Callamard, que trabalha para a ONU, tem sido uma voz inesperadamente alta no ano depois da morte de Khashoggi. Com exigências incessantes por responsabilização, ela se inseriu em uma conversa dominada por governos poderosos, criticando todos eles por suas condutas - incluindo a Arábia Saudita, os Estados Unidos e a Turquia. 

"Ninguém deveria se safar depois de cometer assassinato", ela declarou na cerimônia, dessa vez claramente focando no governo saudita e no príncipe. "Não importa quem eles são ou qual é a posição deles na vida". 

Como outros oradores, ela também abordou o que ela disse ser uma ameaça à mídia global,  que teria sido revelada pela morte de Khashoggi. "Meu chamado para vocês", ela pediu, se dirigindo aos jornalistas do mundo todo, "persistam, insistam, exponham". Ela fez o pedido "por Jamal" e por outros casos semelhantes ao dele ao redor do mundo. 

O cenário adicionou ressonância ao apelo de Callamard. De acordo com grupos que defendem a liberdade de imprensa, o governo da Turquia, que tem vigorosamente exigido que a Arábia Saudita explique a morte de Khashoggi, é um dos mais prolíficos encarceradores de jornalistas do mundo. 

Noiva de Khashoggi não desistiu

A cerimônia também foi um tributo a Cengiz, noiva de Khashoggi, forçada a ficar sob um holofote enquanto sofria com o luto. Foi ela que teve de responder a perguntas para as quais não tinha respostas depois que seu noivo desapareceu, além de ter sido alvo de escárnio nas redes sociais quando leais sauditas tentaram negar que a morte de Khashoggi tinha ocorrido. 

"Ninguém deveria ter de aguentar o que você aguentou", disse Jeff Bezos, em um breve comentário antes de abraçá-la. Ryan, o diretor executivo do Washington Post, também agradeceu a Cengiz, que, segundo ele, teve "um período de grande alegria transformado em um pesadelo terrível". "Você procurou incessantemente por respostas", falou para Cengiz. 

As respostas, mantidas por governos que escondem segredos, segundo o Post, têm sido difíceis de encontrar. Um julgamento em andamento na Arábia Saudita está sendo realizado a portas fechadas. Uma avaliação da CIA sobre o assassinato não foi divulgada. Gravações de áudio feitas pela Turquia sobre o assassinato foram compartilhadas com algumas pessoas, mas não com o público.

"Hoje, no ano passado, eu estava aqui", disse Cengiz no palco da cerimônia. “Eu era uma garota apaixonada, esperando meu homem sair do consulado. Nós queríamos ir jantar. Queríamos convidar nossos amigos para o nosso casamento. Agora, depois do pior ano da minha vida, estou aqui destroçada, mas orgulhosa - orgulhosa de ver todos vocês aqui."

Um drone pairou. Fotógrafos se aglomeraram em direção ao palco. "Eu ainda busco justiça", disse ela. Quero saber o que aconteceu com o corpo dele. Quero que os amigos dele sejam libertados da prisão. Quero que os que estão no poder sejam responsabilizados por suas ações". / W. POST 

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