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Amigos em comum

Quando não está no tribunal, depurando as entrelinhas de direito empresarial - ou em viagem pela América Latina, onde representa cidadãos em apuros - o advogado Fernando Tibúrcio Peña gosta de caminhar ao ar livre. Aves e mamíferos brasileiros são sua especialidade. Sempre que pode, pega os binóculos e se manda mata adentro. Mas nada como mergulhar na selva política para apreciar o "Homo bolivarianus", a bandeirosa espécie do Hemisfério Ocidental que prospera nas latitudes mais pobres e domina as demais com seu canto sedutor.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h03

Tibúrcio conhece bem seus hábitos e acompanha seu rastro pelas Américas, das franjas do Caribe cubano à Cordilheira dos Andes bolivianos. Vez por outra, topa com um deserdado dessa zona de turbulência a procura de uma saída segura e amigos entre a pororoca de companheiros.

Com sua democracia mais sólida, o Brasil desponta como rota de fuga para aqueles que não se enquadram no modelo do socialismo do século 21, talhado pelo caudilho venezuelano Hugo Chávez. Hoje, muitos renegados passam pelos cuidados desse advogado brasiliense de 47 anos, sotaque mineiro e convicções fora de moda em muitos palácios no continente.

O ganha-pão de Tibúrcio são os assuntos corporativos. Mas, por falar espanhol desde criança, graças à mãe nascida na Galícia, e por acompanhar de perto a política da vizinhança, ele fez dos sobressaltos latino-americanos seu bico predileto.

Quando a dissidente cubana e colunista do Estado Yoani Sánchez foi ofendida e proibida de falar no lançamento de um documentário brasileiro em que era entrevistada, Tibúrcio ofereceu-lhe guarida. O caso sensibilizou o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que abriu o Senado Nacional para a blogueira cubana.

Na mesma toada, a médica cubana Ramona Matos Rodríguez sabia quem procurar em Brasília quando fugiu do programa Mais Médicos. Tibúrcio aconselhou-a a apostar no asilo nos Estados Unidos - para onde viajou em março.

Não foi diferente para a oposicionista venezuelana María Corina Machado, que recorreu a Tibúrcio para articular apoio no Brasil após ter sido cassada sumariamente pela Assembleia Nacional de maioria chavista. A deputada cassada tinha bons precedentes.

No ano passado, a bola bolivariana de vez era Roger Pinto Molina, o senador boliviano que em maio de 2012 se refugiou na embaixada brasileira em La Paz. Tibúrcio abraçou o caso do parlamentar em apuros, que temia por sua vida depois de denunciar comissários do governo Evo Morales por corrupção e ligações com o tráfico internacional de drogas.

Se por distração, malandragem ou princípio humanitário, não se sabe, mas o governo Dilma Rousseff levou apenas dez dias para acatar seu pedido de refúgio territorial.

O desfeito provocou urticária no país do companheiro Evo, que tachou o parlamentar rebelde de criminoso comum. Brasília fingiu-se de morta e esqueceu o salvo-conduto que permitiria a saída do senador da embaixada, deixando-o mofar por mais de 15 meses em um pequeno quarto na representação verde e amarela.

Fuga. Inconformado com a "hipocrisia" da diplomacia brasileira, Tibúrcio entrou em contato com o senador e levou o caso para a imprensa internacional. Com o cliente refém nos Andes, entrou no Supremo Tribunal Federal brasileiro com um exótico recurso, um habeas corpus extraterritorial.

A ideia: colocar o prisioneiro boliviano em um carro consular, que é um pedaço do território brasileiro sobre rodas, e levá-lo, finalmente, para seu país de refúgio.

O STF não chegou a julgar o pedido, mas a ideia colou. Em agosto de 2013, na calada da noite, Pinto Molina embarcou em um veículo da embaixada e fugiu cordilheira abaixo até atravessar a fronteira, sempre aos cuidados do diplomata brasileiro Eduardo Saboia.

Chegando ao Brasil, o senador fugitivo foi diretamente para a casa de Tibúrcio. A Bolívia chiou e Brasília deu coice. Na véspera da audiência de Pinto no Congresso Nacional brasileiro, o telefone do advogado tocou. Era Eduardo Santos, o secretário-geral do Itamaraty, com um recado nada sutil. "Se o senador aparecer no Congresso amanhã, será posto no avião e expulso do País".

Tibúrcio, que conhece bem a fauna brasiliense, não deu ouvidos. O senador foi ao Congresso Nacional e permanece até hoje no Brasil, aguardando o parecer do Conselho Nacional de Refugiados (Conare) sobre sua situação - sem mais comentários do governo, brasileiro ou bolivariano.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS VOCATIV

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