Amizade de Mugabe e Mbeki explica falta de ação sul-africana

África do Sul, encarregada de mediar a crise política do Zimbábue, impede intervenções externas por anos

The New York Times,

27 de junho de 2008 | 15h53

As forças do presidente Robert Mugabe já tinha começado a violência no Zimbábue, espancando seus oponentes políticos, quando as câmeras de televisão mostravam a assustadora imagem de Mugabe trocando apertos de mãos com o sorridente presidente sul-africano, Thabo Mbeki, um professo defensor da democracia africana. Isso foi em abril de 2000. E Mbeki, líder da nação mais poderosa do continente, disse que não havia mal nos meios de repressão do presidente zimbabuano. Veja também:Termina segundo turno das eleições no ZimbábueTsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe, ditador do Zimbábue há quase 30 anos Oito anos depois, em abril de 20008, muito daquela cena se repetiu. Por duas semanas, oficiais da eleição zimbabuana se recusavam a divulgar resultados daquele pleito, onde Mugabe havia sido derrotado, e uma nova onda de violência começou. Novamente, Mbeki disse que não havia crise política no Zimbábue. A complexa relação entre os dois líderes, desenvolvida por quase 30 anos, é um fator crucial para entender porque Mbeki, escolhido no ano passado por líderes regionais para mediar oficialmente o conflito no Zimbábue, não critica publicamente Mugabe, nem usa o poder econômico da África do Sul, como potência dominante da região, para conter seus rudes métodos, apesar de anos de eleições falsificadas. A perplexidade do mundo com a abordagem de Mbeki - andando calmamente, sem bengala - se tornou uma profunda frustração nos últimos dois meses. A violência apoiada pelo Estado no Zimbábue ficou tão agressiva que o candidato da oposição, Morgan Tsvangirai, que venceu Mugabe no primeiro turno, desistiu do segundo a apenas cinco dias do pleito. A política de Mbeki, tipicamente chamada de "democracia quieta", está construída na leal convicção de que seus laços especiais com Mugabe podem resolver a crise no Zimbábue através de negociações com paciência, dizem seus colegas e cronistas.  A amizade dos dois líderes começou em 1980, logo após o zimbabuano assumir o poder, explica Mark Gevisser, biógrafo de Mbeki. Com o passar do tempo, o sul-africano manteve uma relação fiel ao líder mais velho. "Mugabe é o pai, mas não um pai querido, um pai problemático, aquele tipo que os filhos só querem ouvir uma vez durante um tempo", continua Gevisser. Por anos, a África do Sul tentou bloquear uma ação internacional contra o governo Mugabe e, no dia 19, se recusou a cooperar com um esforço americano na ONU para condenar os ataques políticos no país vizinho.  Somente após o clamor contra o presidente zimbabuano crescer ainda mais a África do Sul apoio a condenação do Conselho de Segurança contra a "campanha de violência" que aflige a nação. Com a economia do Zimbábue sendo arruinada e milhões de pessoas fugindo para a África do Sul e outras nações, a "democracia quieta" agora é amplamente vista como uma trágica mancha no legado do líder político na região, um nobre homem que sucedeu energicamente Nelson Mandela em 1999.  Também aparece contrastando com muitos líderes sul-africanos do passado e presente, incluindo Mandela, que nessa semana citou a "trágica ausência de liderança" no Zimbábue.

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