Amorim critica texto aprovado na ONU

Ex-chanceler diz apoiar decisão da diplomacia brasileira de se abster em votação que definiu a intervenção no país

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

Na condição de "livre pensador", o ex-chanceler Celso Amorim criticou ontem a linguagem ambígua da resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a criação da zona de exclusão aérea na Líbia e apoiou a decisão do governo Dilma Rousseff de se abster na votação do tema. A resolução, resumiu ele, não trouxe limites para a ação militar. Pouco antes, Amorim apontara o Oriente Médio como a região onde há a maior ameaça para o mundo na área de proliferação nuclear e considerou como "peça realmente importante" a transformação política do Egito.

"Não me cabe ser paternalista nessa questão, mas acho que, nas duas votações sobre a Líbia, o Brasil votou corretamente", afirmou. "No caso das sanções, porque havia um morticínio imediato. Também fez bem em se abster na votação da zona de exclusão aérea pela linguagem ambígua, que os próprios americanos reconheceram existir", disse depois de uma exposição na Conferência sobre Política Nuclear Internacional, promovida pelo Carnegie Endowment for International Peace.

Avesso a sanções, Amorim aceitou e justificou sua aplicação no momento em que foi revelado o massacre de civis pelo governo de Muamar Kadafi. Mas a decisão do Conselho de Segurança sobre a intervenção militar teria ultrapassado o limite da proteção aos cidadãos para lançá-los em uma guerra civil. Para ele, a iniciativa empurrou o líder líbio a posições mais radicais. "Supondo que Kadafi seja mesmo um monstro selvagem, era preciso deixar aberta uma porta para ele sair", aconselhou. "A situação é muito complexa."

O Egito mais pluralista e democrático, segundo Amorim, mudará completamente a geopolítica do Oriente Médio, com ressonância nas negociações de paz entre israelenses e palestinos, no isolamento do Irã e na busca por armas de destruição em massa. A questão, para ele, não pode ser avaliada como "preto no branco".

Teerã. No caso do Irã, Amorim ainda vislumbra a possibilidade de retomada do acordo de troca de urânio enriquecido por combustível nuclear, firmado em maio com o Brasil e a Turquia. O problema estaria na negociação de novas quantidades de urânio e de combustível envolvidas. O acordo de maio foi descrito por Amorim como uma "oportunidade perdida".

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