Amorim opta por não ir à reunião de Lima

Itamaraty alega problemas de agenda e evita primeiro encontro direto com Hillary desde polêmico acordo com Irã

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

Ao contrário da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, decidiu não comparecer à 40.ª Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). O Itamaraty alegou ontem que Amorim não viajou para Lima, no Peru, por questões de agenda.

Iniciado no domingo, o encontro reúne chanceleres dos países-membros da entidade. O representante nacional, além do embaixador do Brasil na OEA, Ruy Casaes, é o número 2 do Itamaraty, Antonio Patriota.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, a ausência de Amorim foi uma "decisão administrativa" provocada por uma agenda "apertada". Ontem, o ministro participou de reunião interna pela manhã e à noite seria entrevistado pelo programa Roda Viva, da TV Cultura, em São Paulo.

Além da passagem por Lima, o roteiro da secretária de Estado americana inclui paradas em Equador, Colômbia ? onde se reuniria com os dois candidatos classificados para o segundo turno da eleição presidencial do dia 20 ? e Barbados.

Na semana passada, chegou-se a cogitar da possibilidade de Hillary incluir o Brasil em sua agenda de visitas, para que reiterasse ao governo brasileiro a necessidade de evitar que o Irã ganhe mais tempo em seu programa nuclear e aprovar sanções contra Teerã no menor prazo possível.

Mas, um dia depois de ter anunciado que "a agenda da secretária" não estava "totalmente fechada", o subsecretário para Assuntos Hemisféricos do Departamento de Estado, Arturo Valenzuela, descartou a possibilidade de a chefa da diplomacia americana fazer uma escala no Brasil. Valenzuela também deixou transparecer, na sexta-feira, que dificilmente Hillary manteria uma reunião bilateral com Amorim ao longo do encontro de Lima.

Irã. A viagem de Hillary Clinton à região tem como pano de fundo um cenário de críticas trocadas entre os governos brasileiro e americano por causa da intenção dos EUA e seus aliados no Conselho de Segurança de aprovar sanções contra o Irã.

O acordo firmado entre Brasil, Turquia e Irã ? segundo o qual os iranianos entregariam 1.200 toneladas de urânio enriquecido a 3,5% em troca 120 kg do produto enriquecido a 20% ? não agradou ao governo de Barack Obama. Em nível de 20%, o Irã teria como fazer funcionar um reator de pesquisas científica, O regime dos aiatolás, porém, afirmou que o acordo não paralisaria o programa de enriquecimento em território iraniano.

Segundo a secretária de Estado, Brasil e EUA possuem "divergências muito sérias" em como lidar com a questão. A Casa Branca defende sanções contra o regime de Mahmoud Ahmadinejad, posição contrária à da diplomacia brasileira.

Em audiência na semana passada no Senado, Amorim rebateu os comentários e lembrou uma carta enviada por Obama a Lula, na qual o líder americano encorajava o brasileiro a obter o acordo de troca de urânio com o Irã. Para Amorim, a posição da secretária foi do tipo "não li , não gostei". Hillary chegou a dizer que Brasil e Turquia tinham sido "enganados" pelo Irã.

O encontro em Lima seria a primeira ocasião em que Amorim se encontraria com Hillary desde o acordo.

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