Amorim viaja e prepara visita de Lula ao Irã

Chanceler manterá reuniões também na Turquia e na Rússia, antes de encontro com Ahmadinejad

Denise Chrispim Marin e Leonêncio Nossa, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Em mais um movimento da intermediação do Brasil nas divergências entre o Irã e as potências nucleares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ontem o chanceler Celso Amorim a Teerã, Istambul e Moscou para insistir no início da negociação de um acordo de troca de urânio.

A empreitada tem como objetivo prático aplainar o terreno para a visita oficial de Lula ao Irã, no dia 15, em um ambiente de pressões dos EUA para a aprovação de novas sanções contra o país no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O anúncio da viagem foi feito pelo próprio Lula, no Itamaraty, logo depois de ter recebido a visita do presidente do Líbano, Michel Suleiman. Assim como o Brasil e a Turquia, o Líbano compõe o Conselho como membro não-permanente. Em maio, mês em que o presidente americano, Barack Obama, pretende ver aprovada as novas sanções contra o Irã, o Líbano presidirá a entidade e decidirá se o tema será ou não posto em votação.

Amorim deverá ser recebido pelo chanceler turco, Ahmet Davutoglu, no sábado. No domingo, em Moscou, se encontrará com autoridades russas e, na segunda e na terça-feira, será recebido em Teerã pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad e o chanceler Manouchehr Mottaki.

"Vou dizer aqui e agora em alto e bom som: o Brasil defende a tese de que o Irã tem o direito de produzir energia nuclear para fins pacíficos", disse Lula "Queremos para o Irã o que queremos para o Brasil. E no Brasil está prevista na Constituição a proibição de armas nucleares."

Lula, entretanto, admitiu que não conta com garantias de que o Irã não tenha o propósito de enriquecer urânio com fins militares.

"O que temos são documentos, tratados e acordos. Por isso, nós acreditamos que os foros internacionais vão conseguir essa garantia para todos nós, sempre na expectativa de que ninguém tenha um momento de loucura e queira utilizar (a energia nuclear) para outra coisa", disse Lula, referindo-se à negociação sobre a troca de urânio iraniano enriquecido por combustível nuclear, a ser mediada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Lula argumentou que o Brasil tem "autoridade política e moral" para envolver-se em um processo de "compatibilização" dos discursos do Irã e do Conselho de Segurança. Ele ainda disse que confia em uma solução "madura" para o conflito.

A atribuição de intermediar em favor da paz, em seu ponto de vista, deixou de ser "privilégio de um ou de outro país".

PARA ENTENDER

A aproximação entre o Brasil e o Irã tem causado desconforto em Washington, que vem tentando isolar diplomaticamente Teerã como forma de pressão para que a república islâmica abandone seu programa nuclear. Para os EUA, a resistência de países como o Brasil em aceitar um regime sanções dá ao Irã um tempo precioso para avançar no programa.

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