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Amostras de Neruda estão nos EUA e Espanha

No aniversário de morte do poeta, o diretor do Serviço Médico Legal chileno libera detalhes da perícia em curso

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2013 | 02h08

Há exatos 40 anos morria na Clínica Santa Maria, em Santiago, o poeta, diplomata e Prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda. Foi um desfecho inesperado para uma personalidade de projeção internacional, que no dia seguinte tomaria um avião rumo ao exílio no México, deixando para trás o golpe liderado por Augusto Pinochet (1915-2006). Do exílio, articularia a resistência aos militares. E denunciaria as execuções sumárias por eles perpetradas. Não embarcou. Morreu na clínica, quatro dias depois de ter sido internado e horas depois de lhe aplicarem uma injeção desconhecida, prescrita por médicos desconhecidos, o que poderá ter revertido o quadro de saúde relativamente estável para quem já tratava de um câncer de próstata. Sua mulher , Matilde Urrutia, também falecida, admitiu em tom enigmático na época: "Não era a hora de Pablo morrer".

Em abril passado, o corpo de Neruda foi retirado de um túmulo nos jardins de sua casa em Isla Negra, bem perto do mar, dando início à ordem judicial de exumação para fins de investigação forense. Busca-se elucidar a causa da morte, depois que seu motorista e secretário, Manoel Araya, membro do PC chileno, tal como o poeta, trouxe a público elementos que apontam para um assassinato por drogas administradas na tal injeção - o que traz à tona mais uma denúncia de eliminação de natureza política, por envenenamento, método letal, rápido e que prescinde da violência física. Anos mais tarde, pela mesma clínica passou o ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva (1911-1982), internado para operação de hérnia e de onde saiu morto por septicemia. O caso Frei permanece em aberto, mas a Justiça já admite "introdução gradual de substâncias tóxicas". No caso Neruda, o prontuário médico desapareceu e a clínica jamais forneceu à Justiça nomes do seu corpo médico, na época dos fatos.

O 40.º aniversário de morte do poeta será lembrado sem conclusões por parte da perícia, pelo que informa o responsável da investigação, Patricio Bustos, diretor do Serviço Médico Legal do Chile, um órgão de governo. Numa rara entrevista (por e-mail) sobre o caso, que corre em segredo de Justiça, Bustos admite que substâncias químicas e biológicas foram produzidas no país e empregadas para eliminar opositores de Pinochet. No entanto, por rigor e cautela, evita associá-las a Neruda. Admite que amostras ósseas estão em análise fora do país, em laboratórios da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e de Múrcia, na Espanha. Por enquanto, foram divulgados os resultados de testes feitos em Santiago confirmando o câncer em estágio avançado. No Brasil, vale lembrar, iniciam-se os preparativos para a exumação do ex-presidente João Goulart (1919-1976), também suspeito de ter sido morto no exílio, por envenenamento.

Em que fase está a investigação em torno de Pablo Neruda?

PATRICIO BUSTOS - Convocamos uma equipe multidisciplinar com 30 especialistas para abordar o caso em toda a sua complexidade, ainda que os trabalhos coloquem ênfase em toxicologia. Afinal, é disso que estamos tratando. O grupo está constituído por peritos chilenos do Serviço Médico Legal, acadêmicos e vários especialistas estrangeiros.

Quem são os estrangeiros e a que instituições pertencem?

PATRICIO BUSTOS - A equipe internacional está formada por Francisco Etxeberría, patologista forense do País Basco, Ruth Winicker, da Universidade da Carolina do Norte, Guilherme Repetto, da Universidade Pablo de Olavide, na Espanha, Aurelio Luna, da Universidade de Murcia e os observadores Morris Tidball-Binz e Mercedes Salado, ambos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. No lado chileno, temos os toxicólogos Andrei Tchernitchin e Lucía Molina, fora legistas, odontólogos, bioquímicos, antropólogos e arquélogos. Cada perícia é um caso à parte e, de acordo com suas características, monta-se a equipe. No caso Allende, lidamos com uma equipe que incluía peritos em balística. E assim estabelecemos como verdade científica o que já era uma verdade histórica (que o ex-presidente chileno suicidou-se no desenrolar do golpe, em 1973).

Qual é o papel da Cruz Vermelha nesses casos?

PATRICIO BUSTOS - O Comitê Internacional da Cruz Vermelha vem assessorando o SML desde 2006 em matéria de identificação humana: faz capacitações com nossos profissionais e atua como observador em alguns casos. Temos trabalhado juntos para o estabelecimento da Rede Iberoamericana de Serviços Forenses, entidade que pode contribuir para o aperfeiçoamento dos organismos que lidam nesse campo, em nossos países.

Por correr em segredo de Justiça, a opinião pública chilena pouco se informa. Na Fundação Pablo Neruda, em Santiago, diretores desconhecem até o paradeiro do corpo do poeta. Existem amostras em teste fora do país?

PATRICIO BUSTOS - O segredo de Justiça quem impõe é o tribunal. Somos apenas um serviço auxiliar da Justiça, portanto, não podemos nos referir publicamente aos pedidos que ela nos faz e nem às peritagens em curso. Só falamos mediante autorização. O que posso dizer é que os restos de Pablo Neruda se encontram sob custodia da Unidade Especial de Identificação Forense do SML e sua restituição ao jazigo será definida pela Justiça. E, sim, amostras foram enviadas para as universidades da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e Murcia, na Espanha, para análises toxicológicas em seus laboratórios.

Por que foram mandadas para estas universidades?

PATRICIO BUSTOS - Porque ambas têm laboratórios em toxicologia de reconhecimento internacional e especialistas altamente capazes. São instituições que contam com a confiança de seus pares.

Existe uma data estimada para as conclusões finais?

PATRICIO BUSTOS - Os laudos vão sendo entregues ao juiz instrutor (Mario Carroza, o mesmo do caso Allende) e a conclusão dos trabalhos depende de peritagens que vão sendo solicitadas. Assim, não há previsão de prazo.

Tal como acontece com Neruda, suspeitas de envenenamento dos ex-presidentes Eduardo Frei Montalva, do Chile, e João Goulart, do Brasil, encontram-se em investigação. O que o SML chileno avançou nesse campo, ou seja, no reconhecimento de substâncias letais, postas em uso por ditaduras sul-americanas?

PATRICIO BUSTOS - É de conhecimento público que o Chile esteve envolvido durante a ditadura militar no desenvolvimento de armas químicas, especialmente de gás sarín, atividade da qual participaram o cidadão americano Michael Townley (agente da CIA, hoje sob programa de proteção a testemunhas nos EUA) e o bioquímico chileno Eugenio Berríos ( trabalhou no serviço de inteligência chilena e foi encarregado por Pinochet do Projeto Andrea, para eliminação de opositores do regime), assassinado no Uruguai. Este tema é alvo de investigações judiciais e de fato tem a ver com a morte de várias pessoas.

O que se sabe, afinal?

PATRICIO BUSTOS - Existe documentação, legal e científica, sobre a produção, armazenamento e utilização de substâncias químicas e biológicas durante a ditadura chilena, usadas para envenenar presos e até provocar sua morte. Isso comprova-se por achados em restos ósseos. Mas não temos ainda um conhecimento sistematizado sobre a utilização mais ampla desses venenos, o que nos leva a trabalhar com cautela e reserva. E lembrando sempre que cada investigação é distinta das demais. Daí a necessidade de aportar a maior quantidade possível de informações para que se chegue a conclusões sustentáveis.

Que investigações forenses estão hoje em curso curso sobre o presidente Frei Montalva?

PATRICIO BUSTOS - Não estou autorizado a dizer.

O SML investiga outros caso de personalidades políticas mortas por suspeita de envenenamento, além de Neruda e Frei?

PATRICIO BUSTOS - No momento não temos novos casos dessa natureza.

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