Amostras provam uso de gás sarin em conflito sírio

Indícios colhidos pelo jornal 'Le Monde' são a primeira prova independente do crime de guerra cometido pelo regime de Assad

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2013 | 02h08

Análises de amostras de sangue, urina, cabelo e roupa colhidas na Síria pelo jornal Le Monde confirmaram o uso de gás sarin na guerra civil que já se estende por 26 meses no país. O anúncio feito ontem pelo diário representa a primeira prova não governamental sobre o crime cometido pelo regime de Bashar Assad. Até aqui, apenas os governos de França, Grã-Bretanha e EUA haviam constatado do uso das armas químicas.

A reportagem coletou as amostras em 13 vítimas da guerra, entre abril e maio, quando o repórter Jean-Philippe Rémy e o fotógrafo Laurent Van Der Stockt estiveram clandestinamente entre grupos rebeldes armados em Jobar e de Ghouta, cidades da periferia de Damasco.

Durante dois meses, os jornalistas presenciaram choques entre tropas leais ao regime e a brigada Tahrir al-Sham, ligada ao Exército Sírio Livre (ESL), maior grupo oposicionista armado.

As amostras foram colhidas pela reportagem no Centro Médico de Kaffer Batna, nas imediações de Damasco, e retiradas da Síria no início do mês. Parte delas foi entregue ao governo francês, que atestou, há três semanas, a contaminação por sarin. Essa análise já havia levado o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, a denunciar oficialmente o uso de armas químicas pelo regime.

Não satisfeito, o jornal Le Monde enviou 21 amostras colhidas na Síria a um laboratório, o Centro de Estudos de Bouchet, o único especializado do país em investigação de armas químicas - ainda que independente, o laboratório é sujeito à Direção-Geral de Armas do Ministério da Defesa francês. A análise indicou a presença de sarin, gás tóxico letal considerado arma química pela ONU.

"Quatorze amostras, envolvendo 13 vítimas, se revelaram positivas, evidenciando a presença de sarin na urina (oito vezes), cabelos (duas vezes), roupas (três vezes) e sangue de uma das vítimas", diz o jornal, em reportagem assinada por Jean-Philippe Rémy.

Além das amostras colhidas pelo diário, o Ministério das Relações Exteriores da França já havia obtido material infectado com produtos tóxicos na região de Saraqueb, no norte da Síria. O produto havia sido pulverizado por helicópteros das forças leais ao regime, de acordo com o governo francês.

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