Ampliação da guerra favorece Assad em reunião, diz analista

Divisões na oposição, cuja participação em encontro de paz na Suíça ocorrerá mesmo sem consenso, fragilizam sua posição

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2014 | 02h01

O cenário sírio para a segunda conferência na Suíça sobre a guerra civil, na quarta-feira - mais deteriorado que o de junho de 2012, na primeira reunião sobre o tema - coloca o regime alauita sírio em vantagem na negociação, afirma o especialista francês no conflito Barah Mikail, da espanhola Fundação para as Relações Internacionais e Diálogo (Fride).

Desde a primeira reunião em Genebra, e especialmente a partir da segunda metade de 2013, disse Mikail ao Estado, as forças do governo retomaram o controle no conflito. Com isso, Assad tornou-se mais aberto à mediação internacional. Por outro lado, no mesmo período, segundo o cientista político, as divisões nas fileiras opositoras se aprofundaram. "A radicalização crescente das posições em ambos os lados será determinante para a evolução do conflito", assinalou.

São mais de 100 mil mortos desde o início do conflito em março de 2011, segundo as Nações Unidas. Uma maneira de verificar o agravamento da crise é observar os relatórios da Comissão de Inquérito da própria ONU, presidida pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.

O primeiro relatório, do dia 23 de novembro de 2011, afirma que a deterioração da situação na Síria levou o Conselho de Direitos Humanos da ONU a estabelecer a comissão internacional independente para investigar as alegações de violação dos direitos humanos. A partir daí, as conclusões do grupo tornam-se cada vez mais dramáticas, alertando para o aumento da violência pelos dois lados do conflito. Práticas inicialmente atribuídas a forças do regime, de acordo com os textos, passaram a ser adotadas também por combatentes da oposição.

No relatório seguinte, de fevereiro de 2012, os investigadores já apontam para os reflexos internacionais. O documento concluiu que a situação dos direitos humanos se deteriorou significativamente desde a última averiguação. A análise naquele momento afirmava que as divisões na comunidade internacional haviam complicado a perspectiva de se acabar com a violência.

"O conflito sírio está internacionalizado em todos os níveis possíveis", opina Mikail. Sua solução, avalia, será determinada principalmente de acordo com o que desejam Rússia e EUA. "Ambos são a favor de uma solução diplomática para a guerra. E os EUA mantêm-se contrários a uma intervenção militar direta. Mas alguns de seus aliados, começando com a Arábia Saudita, não abrem mão de medidas duras e uma mudança radical do regime sírio", afirma. A transição de poder e a saída de Assad são pontos centrais do diálogo, e estão entre as exigências da oposição para enviar seus representantes à Suíça.

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