Valdenio Vieira/PR
Valdenio Vieira/PR

Análise: A classe média e a fábrica de mentiras

A mentira é tão instrumental na gramática política de autoridades do governo que as mortes são atribuídas aos estados e municípios. E por que não conceder crédito às vidas salvas também aos governadores e prefeitos?

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2021 | 10h00

Em recentes falas à imprensa, o chanceler Ernesto Araújo acusou a mídia e grupos externos pela degradante imagem do país no exterior. Autocratas da América Latina e ditadores do Oriente Médio costumam assumir postura análoga. Para não ir tão longe, Nicolás Maduro parece ter-lhe emprestado o roteiro.

É da natureza de governos fracos e incompetentes a transferência de responsabilidades para outrem quando suas políticas fracassam. Quando faltam liderança e coragem e sobram decisões desencontradas e narrativas adornadas por lisérgicas mentiras, o resultado é gestão pública desastrosa.

O Brasil está sem líder, sem comando. Há governo que não governa ou, ao encenar que governa, não governa em consonância com as necessidades mais prementes da maioria do povo brasileiro. O vertiginoso declínio da imagem do Brasil no mundo é resultante de múltiplas variáveis, e a principal delas é a ausência de governança. Pois, nem a mídia, tampouco os supostos grupos externos teriam a competência de arruinar a imagem do país com tanta efetividade como o governo o faz de modo exímio.

Basta analisar as dezenas de declarações emitidas pelo comandante-em-chefe da nação e pelos seus subordinados para verificar que o maior inimigo do governo é a própria incapacidade de planejar, negociar e governar. "Vamos aproveitar para passar a boiada"; "cloroquina cura"; "Biden é comunista"; "os invasores do capitólio são homens de bem"; "que sejamos pária"; "não sou coveiro"; "é uma gripezinha"; "isso é coisa de maricas" etc., etc., etc.. Ah!!! E o vídeo do ex-secretário da Cultura bolsonarista parafraseando trechos de discurso do ministro da Propaganda do regime nazista?

Não foram a mídia ou grupos externos que: tocaram fogo na Amazônia; propuseram fechar o STF ou invocar novo AI-5; nomearam e demitiram dois ministros da Saúde (médicos de formação) em meio à maior crise sanitária dos últimos 100 anos, só porque se recusaram a subscrever, como política nacional, falsa cura milagrosa: o amplo uso da cloroquina.

Novamente, não foram a mídia ou grupos externos que desacreditaram sistematicamente a ciência e negaram a importância da vacina para todos os brasileiros.

A mentira é tão instrumental na gramática política de autoridades do governo que as mortes são atribuídas aos estados e municípios, ao passo que se espalham planilhas em regozijo com a contabilidade de "vidas salvas" da covid-19 pelo "governo federal"... E por que não conceder crédito às vidas salvas também aos governadores e prefeitos?

Não foram a mídia ou grupos externos que sugeriram subordinar o interesse nacional a Donald Trump, assim como não recomendaram ao presidente da República a torpe ideia de relativizar a legitimidade do presidente Biden ou de questionar a integridade do processo eleitoral dos EUA. Tampouco foram a mídia ou grupos externos que propuseram o confronto com a China. Se lembram do "comunavírus"?  Aliás, no que diz respeito ao governo de Pequim, ficou feio demandar por meio de Nota Verbal a retirada do embaixador chinês de Brasília (duas vezes): o reiterado pedido foi solenemente ignorado. Porém, como a inépcia não perde o reboliço, ao fim e ao cabo, ministros de outras pastas tiveram de curvar-se aos chineses para garantir os insumos para a vacina do Butantã para que mais brasileiros não morram - tentando reparar os erros da antidiplomacia nacional.

Não foram a mídia ou grupos externos que derrotaram as candidaturas brasileiras para a composição de instâncias na ONU - foi a incapacidade da diplomacia que se pratica hoje em conjunto com a péssima reputação do governo no sistema multilateral. Se não estamos ainda no fundo do buraco, isso se deve ao bom trabalho de alguns diplomatas que vêm retardando a consumação final da tragédia.

Se o governo tivesse focado desde o início na compra da vacina, em vez de passar meses a fio fazendo propaganda e mobilizando recursos e infraestrutura do Estado para a cloroquina, o país já teria assinado contratos com diversas empresas e já estaria em estágio mais avançado de vacinação - poupando vidas e evitando o colapso do sistema de saúde nacional.

Hoje, o Brasil está refém do despreparo de governo que vaga desorientado pelos quatro cantos do mundo na tentativa de adquirir sobras de vacinas dos mais variados laboratórios. A desgovernança tornou-se a pedra de toque, e o mundo assiste embasbacado a um Brasil irreconhecível, que se tornou risco à saúde pública global. Um pária com louvor, para o orgulho do chanceler!

A propósito, o ministro Araújo, em recente aparição no palco do Conselho das Américas (instituição até outro dia respeitada pelos brasileiros), observou que, apesar da falta de UTIs em "alguns estados", o sistema de saúde brasileiro viria conseguindo lidar bem com a pandemia. A declaração foi feita na semana em que 10.000 brasileiros perderam a vida pela ação do vírus. Ou seja, um compatriota perdia a vida a cada minuto em algum lugar do Brasil - porém, na visão do ministro do exterior, o governo está lidando bem com a questão...

A sociedade está anestesiada e rendida. Normalizou a morte, a falta de liderança, a incompetência e a falta de seriedade. Parafraseando um general, o Exército Brasileiro possui efetivo de cerca de 250.000 integrantes: "Já morreu mais do que um Exército Brasileiro inteiro nessa pandemia".

A bem da verdade, não é necessário ninguém de fora ou da mídia para constatar que o governo é o principal responsável pela deterioração da imagem do Brasil no mundo, responsabilidade que o ministro Araújo teima em transferir a terceiros.

É imperioso lembrar que as variáveis que condicionam o valor reputacional da imagem de uma nação no mundo atual são: 1) estabilidade política; 2) respeito à ordem democrática; 3) solidez econômica; 4) segurança jurídica; 5) liberdade de expressão; 6) respeito às garantias e aos direitos; 7) comprometimento com a preservação do meio ambiente; e, por fim, 8) qualidade da governança.

O governo deixou e ainda deixa a desejar nos oito quesitos. Vejamos: a cena política vive em espasmos e refém de rompantes palacianos junto aos demais poderes e unidades da federação. Quem quer fechar o STF e alude ao uso da força estatal não pode achar que está respeitando a democracia. A economia vai mal com a escalada dos preços e com a perda real do poder aquisitivo da classe média. Os investimentos no país minguaram, e as promessas não se concretizaram. (Não entrarei nos detalhes dos 10 bilhões de dólares anunciados e computados pelo governo, mas que nunca entraram no país - seria de um certo país árabe esse dinheiro.)

Cabe sublinhar que, no mínimo, metade da cúpula da equipe econômica já debandou em busca de outros horizontes - outros renunciaram por falarem o que é certo. O Banco do Brasil vai para o seu terceiro presidente, e o BNDES está já no seu segundo - o demitido presidente da Petrobrás virou bode expiratório para escamotear a subida do preço dos combustíveis.

O Ministério da Economia, apesar de todo o seu fortalecimento - com a fusão de cinco pastas ministeriais -, não consegue impulsionar as reformas estruturais. Ficou na previdência, que, no fundo, foi obra do Congresso Nacional. E a abertura econômica prometida? Inflaram as expectativas, pouco foi entregue.

Os ataques sistemáticos aos meios de comunicação e as intimidações a jornalistas com o uso da lei de segurança nacional são, em suma, práticas de regimes ditatoriais; se ainda existe o mínimo de segurança jurídica, é porque "o cabo e o soldado" ainda não conseguiram agir. Já os cuidados com as minorias, com os povos tradicionais e com o meio ambiente definitivamente não são o forte do governo Bolsonaro. E a qualidade da governança? Sob esse aspecto, fica para o tribunal da história o julgamento deste governo. No entanto, peço ao leitor um obsequioso minuto de silêncio em memória daqueles que pereceram com a covid e em respeito às suas famílias.

Quando a sociedade e a classe média, em particular, saírem do estado letárgico em que estão e descobrirem que sua vida piorou drasticamente e que o seu poder aquisitivo os deixou próximos à fronteira da pobreza, aí a fábrica de mentiras será arma insuficiente para culpar a mídia ou transferir a responsabilidade a quem não foi mandatado pelo voto popular para liderar a nação e atender os seus anseios.

*HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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