Nikola Solic/REUTERS/Arquivo
Nikola Solic/REUTERS/Arquivo

Análise: A complicada saída do Afeganistão

Os EUA não podem partir antes de garantir ganhos tangíveis em termos de compartilhamento de poder e reconciliação nacional

Fareed Zakaria*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2019 | 05h00

Donald Trump está claramente em busca de uma saída do Afeganistão. Na semana passada, o secretário de Estado Mike Pompeo explicou sem rodeios as instruções do presidente: “Acabem com as guerras intermináveis. Diminuam o envolvimento. Reduzam.” A frustração de Trump com esse conflito longo e inconclusivo é bem fundamentada. Washington não pode simplesmente continuar fazendo o que tem feito nos últimos 18 anos e esperar um resultado novo.

Mas tudo agora depende de como Trump seguirá com o desligamento. Corretamente conduzido, o foco deveria ser um acordo político entre o governo afegão e o Taleban. Isso preservaria alguns dos ganhos reais feitos no Afeganistão. Malfeita, uma retirada americana poderia reacender a guerra civil afegã, encorajando grupos terroristas e mergulhando a nação em outra década de turbulência – o que poderia, então, forçar os EUA a retornar, de uma forma ou de outra. Isso é, afinal, o que aconteceu depois que os EUA se retiraram rapidamente do Iraque em 2011.

O perigo real é aquele que os EUA enfrentaram toda vez que travaram uma guerra contra uma força de guerrilha. Henry Kissinger descreveu o dilema de forma memorável em um ensaio na Foreign Affairs escrito antes de sua nomeação como conselheiro de Segurança Nacional em 1969. Os EUA buscam uma meta positiva: ganhar território e estabelecer um governo efetivo. Os guerrilheiros buscam um objetivo negativo: a perturbação. Enquanto os EUA seguem uma estratégia militar, os guerrilheiros têm uma estratégia psicológica – exaurir a força de vontade dos EUA. Os americanos perdem por não vencer; os guerrilheiros ganham por não perder.

O Taleban deu um passo além de uma operação de guerrilha, tendo estabelecido a própria governança independente do governo nacional afegão em algumas áreas. Mas a estratégia básica do grupo parece ser esperar pelos EUA. E Trump, por sua vez, muitas vezes confessa que perdeu o apetite para ficar.

Mas o presidente merece crédito por autorizar uma série de negociações em Doha (Catar) entre um enviado especial, Zalmay Khalilzad, e o Taleban. Essas negociações apresentaram algum progresso. O próximo passo é que as negociações se ampliem para envolver o governo afegão. O resultado seria um governo de unidade nacional que incluísse tanto o atual governo afegão quanto o Taleban. Pode parecer absurdo, mas pode ser alcançado em fases, ao longo do tempo.

A questão crucial para Washington é garantir que não sejam feitas concessões difíceis de reverter – como retirar tropas – enquanto o Taleban se compromete no papel, algo que eles podem facilmente infringir. O ex-embaixador no Afeganistão, Ryan Crocker, teme que possamos estar assistindo a um replay do Vietnã, no qual os EUA obtiveram compromissos da parte do Vietnã do Norte em troca de sua retirada. Mas assim que as tropas americanas foram embora, o Vietnã do Norte renegou tais compromissos e invadiu o Vietnã do Sul.

A maneira mais eficaz de garantir que isso não aconteça no Afeganistão é que Washington adie a redução de tropas até que ganhos tangíveis tenham sido obtidos em termos de compartilhamento de poder político e reconciliação nacional. Ele pode pressionar o Taleban para que mantenha suas promessas, trazendo formalmente as potências vizinhas, como China e Irã, para as discussões (sim, um dos muitos custos de interromper todos os contatos com o Irã é que isso não pode ser útil na estabilização do Afeganistão – um papel que o país desempenhou efetivamente após a queda do Taleban em 2001).

Além disso, existem algumas indicações de uma mudança na atitude do Paquistão em relação ao Afeganistão. O governo ajudou a facilitar as negociações entre os EUA e o Taleban. O novo premiê paquistanês, Imran Khan, afirmou que seu país não mais busca manter “profundidade estratégica” na região, ao insistir num Afeganistão em caos permanente. Se ele pretende isso, e se puder controlar o Exército do Paquistão – uma grande advertência – isso marca uma mudança positiva para toda a região.

“Confie, mas verifique”, disse Ronald Reagan, e esse deve ser o mantra de tais negociações. Todos buscarão ganhos antecipados dos EUA em troca de promessas a serem cumpridas mais tarde. Washington não deve ser enganado.

Os EUA conseguiram muito no Afeganistão. O país está em um lugar decente depois de 40 anos de guerra civil e domínio do Taleban. Um exemplo: havia cerca de 1 milhão de crianças afegãs nas escolas sob o regime taleban; hoje há mais de 9 milhões.

A organização terrorista que o Taleban abrigou, a Al-Qaeda, foi severamente enfraquecida. Os custos para os EUA hoje – 14 mil soldados – não são nem de perto o que eram antes. Os EUA poderiam reduzir ainda mais esse número, ainda mantendo a ordem no Afeganistão e combatendo o terrorismo. Mas, primeiro, Washington precisa garantir que não só acaba com a guerra, mas conquista a paz. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É COLUNISTA

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