Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Análise: A contranarrativa para 2022

Agenda econômica do País, daqui em diante, será a defesa da popularidade do presidente, a sua reeleição e a consolidação de seu projeto de poder

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 12h04

A boa maioria do eleitorado do presidente Bolsonaro está satisfeita com os rumos da governança do País. Engana-se quem acha que o mandatário brasileiro está enfraquecido ou refém do casuísmo institucional. Não há “rachadinha”, 121 mil mortos pela covid-19 ou os inexplicáveis R$ 89 mil na conta da primeira-dama que abale a confiança do eleitor bolsonarista em seu “presidente Mito”.

Com o centrão e o mercado rendidos aos “encantos” da caneta presidencial, o presidente navega sem oposição real no campo da política e com os segmentos econômicos acuados com o que podem perder. Faça a estripulia fiscal que bem quiser, o empresariado não largará o presidente – que o diga o ‘Sistema S’.

Bastou o presidente apenas ameaçar com a possibilidade de acabar com os polpudos subsídios, benefícios fiscais e empréstimos a juros de padaria para o empresariado abraçar a agenda do governo e entronizar o “Mito”. Essa relação transacional serve, obviamente, a ambos os lados: ao próprio governo e às forças econômicas do País. Ao invés do empresariado/mercado moldarem o presidente, foi o inquilino do Planalto quem moldou o mercado e os setores do empresariado oligarquista – e sem berreiro.

Outro importante fator a observar é a forma como o presidente logrou descolar a sua imagem dos problemas que assolam o País e, sobretudo, dos fracassos que adornam alguns ministérios de seu próprio governo. De todos os equívocos ocorridos no ministério da educação, por exemplo, nenhum respingo sobrou para o presidente da república. Do mesmo modo, a catatônica política ambiental em nada atingiu a popularidade do presidente no contexto interno. Vivemos em tempos políticos onde vigora o mecanismo assimétrico de responsabilização.

Ao capitalizar eleitoralmente sobre os efeitos do auxílio emergencial de R$ 600 e ao abraçar os programas sociais de governos anteriores, o presidente avança para consolidar a sua força no Nordeste. É possível que a sua popularidade subsista enquanto o assistencialismo perdurar.

Porém, não se deve desprezar a força dos desesperançados e revoltados que enxergam no bolsonarismo a sua redenção. Do ponto de vista político-eleitoral, esse grupo é muito mais poderoso e efetivo em um País dominado pela polarização.

Tudo indica que, doravante, a agenda “liberal” do Ministério da Economia caminha para ser o bastião do populismo fiscal. A agenda econômica do País, daqui em diante, será a defesa da popularidade do presidente, a sua reeleição e a consolidação de seu projeto de poder.

Com duas vagas na mão para o Supremo Tribunal Federal, com a vaga de vice-presidente na chapa em 2022 para leiloar e com os cofres abertos para quem se ajoelhar em reverência ao “Mito”, o presidente vai moldando instituições, atores políticos e os especuladores de capitais – conhecidos pelo codinome de “o mercado”.

Foi-se o Moro e pode-se ir o Guedes e, ainda assim, o presidente parece seguir inabalável. O seu personalismo o tornou transcendental. A grande massa do nosso povo adora líderes personalistas – e as instituições se rendem desavergonhadamente – é o tesão do poder estúpido!

O presidente Bolsonaro tornou-se uma figura independente de lastro alheio – o que fortalece cada vez mais as suas idiossincrasias autocráticas – e tudo que parece ser “absurdo” foi, ao cabo, naturalizado com o santo rótulo da normalidade.

Quem defende o “Mito” não está interessado em saber de “rachadinha”, dos R$ 89 mil do Queiroz, de quantos morreram na pandemia, dos nacos polpudos na partilha do espólio político com o centrão ou se o governo vai bem ou mal. Tampouco os 40% que  aprovam o governo querem saber se o presidente é o principal indutor daquilo que se rotula de “velha política”. Quem o elegeu não está interessado em ver os defeitos deletérios de seu “Mito”!

Os defensores do bolsonarismo sentem-se como parte de uma “revolução” – por mais torta ou pervertida que seja aos olhos de seus opositores. O eleitor que endossa acriticamente Bolsonaro se sente parte do projeto do presidente por forte conexão ideológica e por forte senso de revolta.

Como o País tem um encontro marcado com a história em 2022, fica um alerta: o embate com o atual incumbente não se assentará sobre uma burilada agenda programática. Será necessário mais do que um hígido programa de governo para vencer. É preciso construir uma possante contranarrativa e é preciso, sobretudo, ser convincente.

*Hussein Kalout é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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