AP Photo/Ahn Young-joon
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Análise: A Coreia do Norte está à frente dos EUA na guerra de intimidação 

Para muitos que estudam como as estratégias nucleares funcionam de fato, é concebível que a Coreia do Norte possa chegar ao confronto nuclear e, ainda assim, sobreviver

Eric Talmadge / AP, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2017 | 05h00

O bom senso indica que se a Coreia do Norte algum dia usar suas armas nucleares contra os EUA, estará se suicidando. Mas prepare-se para ouvir o que especialistas em dissuasão nuclear chamam de “teoria da vitória”. Para muitos que estudam como as estratégias nucleares funcionam de fato, é concebível que a Coreia do Norte possa chegar ao confronto nuclear e, ainda assim, sobreviver. Os atuais testes de mísseis sugerem mais uma vez que ela esteja correndo contra o tempo para fazer exatamente isso – mas apenas se acreditar que está sem saída. 

Cada míssil que o líder norte-coreano, Kim Jong-un, dispara tem um alto custo. A Coreia do Norte não tem um suprimento ilimitado, e eles não são baratos ou fáceis de se construir. Assim, quando Kim ordena a suas forças estratégicas que lancem um míssil, é fácil deduzir que ele pretende obter com o teste o máximo de resultados políticos, estratégicos e de treinamento. Há uma sólida estratégia por trás de cada teste.

A Coreia do Norte jamais insinuou que usaria armas nucleares para atacar, sem nenhuma advertência, os EUA ou seus aliados. Mas, como Washington, ela vem indicando, quase explicitamente, que se for atacada, ou tiver motivos para crer que um ataque seja iminente, tem o direito de retaliar, ou mesmo de atacar antes. 

Kim, temendo um ataque que decapitasse seu governo, adicionou mísseis e bombas nucleares ao quadro defensivo para proteção extra. Sua estratégia é neutralizar a opção militar de Washington mantendo Seul e alguma cidade americana como reféns. 

Por várias razões, países com grandes arsenais são geralmente considerados menos propensos a usá-los. Acredita-se que a Coreia do Norte tenha um arsenal talvez de dezenas de bombas nucleares, acrescentando possivelmente uma dezena a cada ano. Isso é muito, mas analistas acreditam que Kim precise de mais umas centenas para aplacar sua “síndrome do dedo mole”.

O presidente dos EUA, Donald Trump, vem prometendo fogo e fúria como o mundo jamais viu. Para alguns, é a “estratégia do louco”. Richard Nixon, inspirado nos textos de Maquiavel, tentou usar a tática contra o Vietnã. Sua ideia era levar os vietnamitas e seus aliados a crer que Nixon faria qualquer coisa, incluindo usar armas nucleares. 

Mas, se Trump está pretendendo o mesmo, não está fazendo direito. Enquanto o governo de Kim fala com uma só voz e se mantém coeso – que é o que dá credibilidade à “estratégia do louco” –, é muito difícil para Trump fazer suas declarações insanas sem que seja desmentido por alguém de seu gabinete. Em algum ponto, a confusão toma conta e sobra apenas a incoerência. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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