Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Análise: A crise da Grande Depressão com a inflação de Weimar

Apesar de a Venezuela ter as maiores reservas de petróleo do mundo, o FMI estima que a economia venezuelana vá encolher pelo quarto ano consecutivo, desta vez, 7,4%

Matt O’Brien / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2017 | 05h00

A economia entrou em colapso, o povo passa fome e a culpa é do governo. O que dá para dizer é que as coisas estão tão terríveis quando poderiam. O povo está desesperado, mas o regime também está aterrorizado com a perspectiva de encarar as consequências do que vem fazendo. O resultado é um crescente estado de violência que tem como pano de fundo uma catástrofe humana. É demais para “la revolución”. Está difícil descrever a escalada da violência na Venezuela. 

Apesar de o país ter as maiores reservas de petróleo do mundo, o FMI estima que a economia venezuelana vá encolher pelo quarto ano consecutivo, desta vez, 7,4%. Se isso se confirmar, a economia terminará o ano 32 vezes menor do que era no começo de 2014.

A Venezuela vive ao mesmo tempo uma crise econômica padrão Grande Depressão e uma hiperinflação no estilo de Weimar. A explicação é o regime socialista bolivariano. O governo conduziu mal a economia no período de bonança, dobrou a aposta errada durante a crise e parece disposto a declarar guerra ao próprio povo.

É um círculo vicioso de más políticas e pior sorte – ou má sorte e piores políticas? Difícil dizer. De qualquer modo, a incompetência inicial do governo tornou-se justificativa para mais incompetência. Isso é receita para o desastre, mas não um desastre fatal se os preços do petróleo ficassem nos três dígitos. Agora que caíram pela metade, a Venezuela tornou-se um Estado falido.

Não parece que a situação seja sustentável – e, no entanto, poderá ser. Basta olhar para o Zimbábue. O governo entrou numa orgia destrutiva de imprimir dinheiro uma década atrás – no pico da inflação, os preços dobravam de um dia para outro –, mas conseguiu se manter no poder.

O regime chavista também pode conseguir, apesar da escalada de protestos contra ele. Como? Pela mesma razão pela qual conseguiu chegar ao poder: tirando vantagem da divisão entre ricos e pobres. Bairros operários que levaram o chavismo ao poder hesitam em se voltar contra o governo que lhes deu casa, saúde e educação grátis. Isso pode começar a mudar à medida que a fome afastar antigas lealdades, mas pode não mudar – especialmente se o governo conseguir chantageá-los com o pouco alimento que ainda fornece.

Há uma cruel ironia nisso tudo. Não é todo governo socialista que acerta as contas com os credores de Wall Street enquanto vê seu povo ficar sem alimentos. O regime chavista, no entanto, é uma exceção, pois precisa de dólares para comprar a lealdade do povo e o único modo de consegui-los é vendendo petróleo no exterior.

E, se a Venezuela der um calote na dívida, investidores provavelmente vão apreender carregamentos de petróleo como ressarcimento. Isso destruiria a capacidade do governo de tomar novos empréstimos. A perspectiva do país é tão ruim que não entusiasma nem os chavistas. Eles preferem o gás lacrimogêneo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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