Leah Millis / Reuters
Leah Millis / Reuters

Análise: A demonização do oponente

Depois que Trump assumiu o poder é normal que pessoas que dizem o que pensam estejam sujeitas a hostilidades, a mensagens de ódio e a ameaças de morte

Alexander Soros / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2018 | 05h00

Somos gratos por ninguém ter se ferido. O incidente, porém, foi perturbador – uma vez que pôs em risco a segurança de nossa família, vizinhos, amigos e o próprio futuro da democracia americana. Minha família conhece bem a hostilidade dos que rejeitam nossa filosofia, nossa política ou até nossa identidade.

Meu pai cresceu à sombra do regime nazista da Hungria. Meu avô conseguiu documentos com nomes falsos para que a família sobrevivesse aos ataques aos judeus de Budapeste. E ajudou muitos outros a fazer o mesmo. 

Depois da guerra, quando os comunistas tomaram o poder, meu pai fugiu para Londres e iniciou uma carreira de sucesso em finanças. Ele sabe que sua ação filantrópica, embora apartidária, é política num sentido mais amplo, e procura apoiar quem promove sociedades nas quais todos tenham voz.

Há uma longa lista de pessoas que consideram isso inaceitável, o que valeu a meu pai inúmeros ataques ao longo da vida, a maioria com o veneno do antissemitismo. 

Mas algo mudou em 2016. Antes disso, o vitríolo lançado contra ele vinha de extremistas e nacionalistas que buscavam solapar a democracia. Mas, com Donald Trump, as coisas pioraram. Supremacistas brancos e antissemitas apoiaram a campanha.

Trump reservou a meu pai, a Janet Yellen, presidente do Fed, e a Loyd Blankfein, do Goldman Sachs – todos judeus -, uma linguagem alarmista sobre “interesses especiais”. Um gênio deixou a garrafa e pode levar gerações para ser colocado de volta nela.

Agora, sofremos atentados à bomba. Embora a responsabilidade seja dos indivíduos que mandaram esses artefatos, não consigo separar os ataques da nova e rotineira demonização política que assola toda a sociedade. Hoje, é normal que pessoas que dizem o que pensam estejam sujeitas a hostilidades, a mensagens de ódio e a ameaças de morte. 

É também normal que organizações pró-democracia recebam ameaças simplesmente por aceitarem apoio de fundações iniciadas por meu pai. E também é normal que líderes políticos que juraram proteger todos os cidadãos passem a instigar divisões e destilar ódio.

Precisamos encontrar um novo discurso político que abomine a demonização dos rivais. Um primeiro passo seria rejeitar nas urnas os políticos que cinicamente destroem as instituições de nossa democracia. Mas temos de fazer isso já, antes que seja tarde. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É FILHO DE GEORGE SOROS E VICE-PRESIDENTE DA OPEN SOCIETY FOUNDATIONS

 

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