Joe PUGLIESE / HARPO PRODUCTIONS / AFP
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A duquesa de Sussex e o departamento de RH de Sua Majestade; leia a análise

Revelação mais chocante da entrevista com Oprah Winfrey não foi que Harry mal falava com o pai ou que Kate Middleton teria feito Meghan chorar – mas que a família real tem um departamento de recursos humanos

Monica Hesse / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 05h00

A revelação mais chocante da entrevista com Oprah Winfrey não foi que Harry mal falava com o pai ou que Kate Middleton teria feito Meghan chorar – mas que a família real tem um departamento de recursos humanos, ao qual Meghan recorreu para tentar melhorar o péssimo ambiente de trabalho. Os tabloides espalhavam mentiras e a assediavam sem parar. A pressão era insuportável. Ela tinha pensamentos suicidas. Então, Meghan foi para o que imaginamos ser uma ala do Palácio de Buckingham decorada com tapetes bege e pôsteres de gatinhos e pediu ajuda. 

Mas o RH alegou que não havia nada que eles pudessem fazer, de acordo com a duquesa. “Você não é uma funcionária remunerada da instituição”, Meghan disse ter ouvido. Vinte e seis anos atrás, a princesa Diana deu uma entrevista que virou a família real de cabeça para baixo ao revelar que seus membros eram, na verdade, humanos. Seu marido a estava traindo com a ex-namorada e reclamava de seu sucesso profissional.

Mas a entrevista de Meghan foi muito mais crítica à monarquia. Ela revelou que a realeza é um negócio. É uma corporação de bilhões de dólares, com um comportamento sistemático de jogar aos leões os membros do palácio que são mulheres e não brancos, no esforço de preservar a marca da empresa.

Os outros residentes da casa real não ajudaram. Meghan já tinha recorrido a “uma pessoa mais velha”, mas foi informada de que procurar tratamento em uma clínica de saúde mental “não seria bom para a instituição”. Em certo ponto, um conselheiro sugeriu que ela estava criando dificuldades para si mesma, sugerindo que ela deveria apenas tirar o assunto dos tabloides desaparecendo por um tempo – ao que ela respondeu que havia saído de casa apenas duas vezes nos últimos quatro meses.

Outro membro da “instituição” reconheceu que, sim, Meghan estava passando por uma fase difícil, mas que todos passaram por isso. A crítica pública faz parte do trabalho. Parecia não haver nenhum reconhecimento do esforço de Meghan, uma negra americana que se casou com alguém de uma linhagem cujos ancestrais preferiam se casar com os primos em vez de romper a tradição. O Daily Mail se referiu a ela como “vinda de Compton” (cidade da Califórnia) e mencionou seu “DNA exótico”, dando origem a uma indústria de críticas a Meghan pelo mesmo comportamento que antes havia atraído elogios a Kate Middleton.

Ao longo da entrevista, Meghan e Harry tiveram o cuidado de não citar nomes, o que transformou a análise pós-entrevista em um jogo de adivinhação. Quem estava preocupado com a cor da pele do filho de Harry? Foi Charles, que Harry disse que “não retorna mais as ligações”? Foi William, com quem Harry disse manter um relacionamento “distante”? Oprah confirmou que não tinha sido a rainha Elizabeth ou o príncipe Phillip. Então Kate, talvez?

Mas esse jogo tira o foco da mensagem de Harry e Meghan: a monarquia britânica não é uma instituição sólida com algumas maçãs podres, é uma instituição falida que faz as maçãs apodrecerem. Meghan salvou Harry disso, segundo ele, abrindo seus olhos para a disfunção generalizada. 

Poucas mulheres se identificam com as complicações de ser uma princesa, mas muitas podem se identificar com a conversa do RH, uma caixa de lenços sobre a mesa e ser questionada se tudo não é coisa da sua cabeça.

Você não teria provocado o assédio enviando sinais contraditórios? Tem certeza de que não é um problema pessoal? Você pode registrar uma queixa, mas isso pode tornar as coisas difíceis para todos. É isso o que você quer? Meghan pensou que tinha recorrido a um departamento projetado para ajudá-la, mas aprendeu, como muitos antes dela, que ele foi criado para ajudar a empresa. 

*É COLUNISTA

 

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