EFE/Schneyder Mendoza
EFE/Schneyder Mendoza

ANÁLISE: A falência do socialismo do século 21

É difícil dizer se a queda do avião da Cubana de Aviación, em Havana, há algumas semanas, ou o simulacro de eleição na Venezuela, no dia 20, seriam a melhor ilustração da falência total do socialismo do século 21

Jorge Castañeda, New York Times, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2018 | 05h00

É difícil dizer se a queda do avião da Cubana de Aviación, em Havana, há algumas semanas, ou o simulacro de eleição na Venezuela, no dia 20, seriam a melhor ilustração da falência total do socialismo do século 21 tão apregoado por Raúl Castro e Hugo Chávez. Ambas são tragédias que causaram mortes evitáveis e representam o que está por vir nos dois países.

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Cuba pagou um preço enorme pelos sucessos iniciais, e talvez duradouros, da sua revolução: educação, saúde e dignidade. Mas, desde o início – com exceção de alguns anos entre o colapso da URSS e o fim dos subsídios para Cuba, em 1992, e o advento do apoio venezuelano, em 1999 –, o país sempre encontrou alguém para pagar suas contas.

A Venezuela, por sua vez, trilhou um caminho perigoso com a eleição de Hugo Chávez, em 1998: estabelecer um regime socialista após a Guerra Fria, apenas com respaldo de Cuba. O apoio da inteligência e da segurança cubanas a Caracas continua, mas os altos preços do petróleo acabaram em 2014 e também a generosidade venezuelana com Havana. O que importa hoje é a sobrevivência.

Alguns meses após o início da transferência de um poder da era Castro para um novo sistema, diferente, mas não totalmente novo, a ilha, mais uma vez, se depara com enormes desafios sociais e econômicos. Eles decorrem de três problemas sem solução. Primeiro, a queda do turismo dos EUA e a nova linha dura adotada pelo governo Trump com relação a Cuba. Até março, o número de visitantes dos EUA caiu mais de 40% em comparação a 2017. 

Isto se deve, em parte, aos alertas de segurança emitidos por Washington e porque, após o boom inicial do turismo nostálgico, Cuba agora disputa visitantes com o restante do Caribe. Com a queda do turismo, hoje muitas pequenas empresas abertas para atender visitantes dos EUA estão falindo.

Segundo, as sanções americanas e o temor cubano de realizar reformas econômicas tornaram a busca de investimento externo inútil. Algumas empresas americanas temem os riscos diante da hostilidade de Trump com relação a tudo o que Obama aprovou e a sua dependência da Flórida para uma reeleição. A economia cubana deixou de crescer, a escassez retornou e novas oportunidades de emprego e ganhos em moeda forte já não existem. Se adicionarmos a isso a decisão do governo de suspender novas autorizações para trabalho por conta própria, não surpreende que as perspectivas econômicas sejam sombrias. 

Daí a pertinência da metáfora, no caso da queda do avião em Cuba: como a economia do país, o avião era velho, sem manutenção, arrendado pela empresa aérea nacional porque era o único que tinha condições de pagar e o restante da frota doméstica da Cubana de Aviación já não tem condições de voar.

Em sua assembleia anual, a OEA analisará uma moção de suspensão da Venezuela, o que provavelmente não ocorrerá, mas uma posição deverá ser tomada pelas democracias da região. A comunidade internacional pode decidir, cinicamente, mas não irracionalmente, que a crise é muito perigosa para ser deixada para os venezuelanos. Neste caso, a única maneira de pressionar o governo de Maduro parece ser a decretação de sanções ao petróleo. E, neste caso, Cuba será bastante afetada. 

Se a recessão econômica atual piorar e provocar um descontentamento geral, o regime se defrontará com uma crise social sem os dois remédios fundamentais que sempre usufruiu: os irmãos Castro e a migração para Miami. Ninguém imagina como o regime agirá se eclodirem distúrbios. A única certeza é a falência total do chamado socialismo do século 21 na Venezuela, e em Cuba, com outro nome. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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