Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Análise: A imagem de um Brasil desgovernado

Hoje, a imagem do País é a da inépcia do governo; falta de governabilidade, ausência de processo decisório estruturado e inexistência de estratégia cobram preço exorbitante

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 13h01

Ninguém tem conseguido retratar de forma tão fiel e genial a tragicômica realidade do governo nacional do que o comediante Marcelo Adnet. Suas esquetes não são apenas soberbas pela imitação sempre acurada dos personagens escolhidos, mas também pelo conteúdo e pela perspicácia com a qual é retratada a torpe sanha que hoje assola nosso país.

De modo sutil e despretensioso, Adnet procura explicar didaticamente aos milhões de brasileiros, por meio de hilárias paródias, os problemas mais prementes do país – tendo em vista que se tornou impossível levar a sério e ainda causa espécie o que alguns integrantes do governo dizem e fazem.

A realidade é deprimente, porém inescapável. A imagem do Brasil no mundo se desintegra a cada dia. Reza a lenda que a imagem de um país é retrato fiel de seu povo. Pois, no caso brasileiro, infelizmente, não é mais assim. Hoje, a imagem do país é a imagem da inépcia de seu governo. A falta de governabilidade, a ausência de processo decisório estruturado e a inexistência de estratégia para guiar os principais temas governamentais já cobram preço exorbitante. 

A mídia internacional e, de tabela, líderes mundiais assistem incrédulos ao nível de degradação que o Brasil alcançou em curto espaço de tempo. Dia sim e outro também, instituições públicas são veladamente ameaçadas e intimidadas com a alusão ao emprego de “mecanismos nada convencionais” para a suposta contenção de seu ímpeto “politizado”.

Quem ameaça os poderes constitucionais da república não pode falar em democracia. Quem intimida as instituições de Estado não pode falar na necessidade de harmonizar as relações entre os poderes. E quem busca dar interpretação esdrúxula aos artigos da Constituição Federal, para acomodar seu ímpeto autoritário, deve entender que o poder moderador é o império da lei e a este todos se sujeitam em Estado que se pretende democrático – ou nos tornamos a Venezuela!

Em cenário marcado pelo anacronismo governamental, ninguém quer apostar o futuro de seus investimentos de curto e médio prazos no Brasil. Pelo andar da carruagem, nossas exportações podem descarrilhar em breve e, na sequência, esbarrar em dificuldades na Europa, na Ásia e, potencialmente, na América de Trump, a depender do cenário eleitoral.

O panorama econômico será penoso. Os mais pobres, em país onde a riqueza nacional se concentra na mão de menos de 1% da população, são vítimas duplamente penalizadas nessa pandemia. Já a classe média está em processo de franco empobrecimento e rapidamente o “custo Brasil” será debitado em sua conta.

O fosso da desigualdade já era tremendamente profundo. Com os efeitos da pandemia e do colapso da economia, nós nos tornaremos mais desiguais. Nos bolsões de pobreza do país, o governo de turno simplesmente inexiste. O desmatamento na Amazônia avança de forma acelerada. A “boiada”, como salientou o ministro da pasta, está passando em escala geométrica, como a propagação da covid-19.

A imagem maculada do país é fruto de suas palavras e de suas políticas públicas – nesse último caso, falo de ausência mesmo. O confessado desapreço pelas normas de proteção do meio ambiente e sua biodiversidade é realidade que até o momento parece ser incontornável.

Como se não bastasse a balbúrdia instalada na saúde pública, agora a base bolsonarista é incitada de forma oficial a praticar arruaça e instaurar a anarquia em hospitais do país. O que se viu nos últimos dias é de causar perplexidade constrangedora. O ataque criminoso ao STF atinge o cúmulo do desrespeito à democracia e ao Estado de Direito. Não condenar o ataque significa endossar a agressão ao Poder Judiciário. Comandado por gente despreparada, o País se está convertendo em uma grande várzea.

Aliás, quem investe no “Centrão” para salvar a governabilidade já entrou em estado de “coma político” e não consegue mais impor seu comando decisório na arena política. A estratégia de buscar o confronto com as instituições encobre o que na verdade são manobras táticas para garantir o respiro do dia, eximindo-se em cadeia nacional das obrigações de bem governar.

O genial Adnet terá muito trabalho nos meses a seguir. Infelizmente, ainda não se alcançou o fundo do poço. Pois jamais se deve subestimar o desespero e a incapacidade de quem nunca teve vocação para liderar e inteligência para governar – em particular quando acuado. E cabe lembrar, em tempo, que as Forças Armadas não são extensão do bolsonarismo. Sua missão precípua não é política. Meter-se nesse lamaçal não agrega nada a sua reputação institucional.

*HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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