AP Photo/Evan Vucci
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Análise: A imprensa deve boicotar ou respeitar Donald Trump?

Analistas e estrategistas opinam qual a melhor tática para lidar com os ataques do presidente americano à mídia

Jim Rutenberg, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2018 | 05h00

O presidente da CNN Jeff Zucker deu a seus comandados ordens inesperadas um dia depois do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump retirar a credencial do jornalista Jim Acosta, correspondente da rede na Casa Branca.

A tentação de fazer um estardalhaço foi forte. Afinal, uma estrela da CNN estava no meio da celeuma e o noticiário de TV não é nada se não autopromoção. Mas na reunião regular na manha de quinta-feira, Zucker disse a seus produtores para não revidarem. Desta vez a CNN não seria levada a dar um tempo de emissão significativo a um novo ataque de Trump contra a mídia, especialmente no momento em que os democratas se preparam para assumir o controle da Câmara e Jeff Sessions foi obrigado a renunciar ao cargo de secretário da Justiça.

Esta foi a primeira medida no sentido de um novo enfoque para lidar com os disparates do presidente contra a mídia e que atingiu um novo patamar na semana passada quando Trump foi além da mera retórica e ameaçou fazer o mesmo para qualquer pessoa que faltar ao “respeito”.

Outras organizações de notícias seguiram a orientação de Zucker, resistindo ao ímpeto de atacar, desta vez, permitindo ao presidente transformá-las em personagens fracassados em seu eterno melodrama nacional.

Mas a cobertura equilibrada não ajudou a restaurar a autorização de acesso de Acosta à Casa Branca. E tampouco impediu Trump de ameaçar barrar outros jornalistas cujas perguntas não o agradarem. Desta maneira o grupo de jornalistas que trabalha como correspondentes continua no mesmo beco sem saída.

Os jornalistas poderiam realizar uma manifestação de protesto. Mas isto daria a impressão de estarem em guerra com o presidente, como ele afirma. Ou não fazer nada e “se submeterem ao poder do presidente de determinar quem pode exigir que ele preste contas de alguma coisa”, como afirmou o ex-estrategista republicano Steve Schmidt em entrevista que me concedeu na sexta-feira.

Schmidt estava na minha agenda telefônica quando fiz uma pesquisa junto a estrategistas dos dois partidos para saber sua opinião a respeito e como lidar com esse problema.

Não tenho hábito de pedir a agentes políticos para opinarem sobre assuntos jornalísticos. Mas os correspondentes da Casa Branca parecem ter sido vencidos se defendendo de ataques de um homem que deixou perplexos seus rivais com apelidos insidiosos como Low Energy Jeb, Lyin’ Ted e Crooked Hillary.

Os estrategistas têm mais experiência com este tipo de coisa do que os editores de jornais ou professores de jornalismo. “Ele está fazendo um jogo sujo com vocês”, disse Stephanie Cutter, estrategista democrata que trabalhou nas campanhas presidenciais de Barack Obama e John Kerry.

Ela se referiu ao grupo “Swift Boat Veterans for Truth”, que destruiu um dos pontos fortes de Kerry, seu excelente histórico de guerra no Vietnã. As falsas acusações se tornaram um problema de campanha clássico para Kerry. Dirimir ou mesmo contestar as acusações só chamaria mais atenção. E permitir que elas ficassem sem resposta tornaria mais corrosiva a situação. (Kerry acabou respondendo, mas alguns democratas disseram, quando foi derrotado, que ele reagiu tarde demais).

Os jornalistas correspondentes rapidamente desmentem as declarações falsas e foi o que fizeram depois de a Casa Branca afirmar que Acosta havia colocado “suas mãos” numa jovem assessora que desejava tirar o seu microfone quando ele entrou em confronto com Trump na quarta-feira.

Mas segundo Stephanie Cutter, sempre que possível os jornalistas que trabalham como correspondentes na Casa Branca devem deixar de dar atenção aos ataques do presidente e manter o foco nos assuntos.

“Eles não precisam fazer cobertura de um homem que procura confusão com eles com o objetivo de desviar o assunto da sua base”, disse ela. “Tudo tinha a ver com o Departamento de Justiça e a tentativa de impedir a investigação sobre a Rússia”. Mas isto não traz de volta o crachá de imprensa que foi retirado de Acosta.

Para Schimdt, que colaborou na campanha de John McCain em 2008 e trabalhou algum tempo na Casa Branca à época de George W. Bush, um boicote das sessões de informação da Casa Branca “deveria ser considerado” até a credencial de Acosta ser devolvida – especialmente quando Sarah Huckabee Sanderes, a secretária de imprensa do governo utiliza com tanta freqüência aquelas sessões para difundir mentiras.

“O que eles deveriam dizer é que as sessões de informação devem ser condicionadas e terem como premissa o direito da imprensa livre de exigir que o governo preste contas”, disse Schimdt, que se tornou um crítico de Trump na MSNBC e anunciou recentemente estar deixando o partido republicano.

Neste ponto, contudo, mesmo a Associação dos Correspondentes da Casa Branca não ameaça com um boicote. A não convocação neste sentido tem a ver com o fato de Acosta ser uma figura um tanto polarizadora, considerado por alguns de seus colegas um indivíduo petulante. Mas há também o risco de uma reação violenta se os repórteres evitarem a próxima sessão de informação.

Como disse Anita Dunn, estrategista democrata e ex-assessora de Obama na Casa Branca, “Isso os coloca no centro da história. Quanto mais personalizarem o que ocorreu mais o caso se transforma numa disputa entre a mídia e o presidente, que é o contrário de a imprensa estar realizando o seu trabalho”, disse ela.

Encontrei um raro acordo entre Anita Dunn e seu oponente Jim Dyke, estrategista do Comitê Nacional Republicano durante os anos de George W. Bush. Ele estava em Dakota do Sul e por telefone disse-me que lá as pessoas “não estão dando a mínima importância” para a credencial de Acosta.

Quando perguntei a ele que conselho ofereceria para os jornalistas se fossem seus clientes, ele respondeu. “Não tem a ver com eles e eles obcecadamente fazem com que tenha a ver, e não é o caso”, acrescentou.

Em sua opinião os jornalistas são demais estridentes quando contestam o presidente, pessoalmente ou pelo Twitter. “Se você está numa campanha e seu candidato está nervoso com outra pessoa e tudo o que pode dizer é “Esse filho da mãe é um idiota” ele normalmente perde”, disse ele.

O conselho que ele deu foi “Acalmem-se. E mostrem para com a presidência o respeito que ela merece”. E continuou: “Agora, vocês dirão, ‘como respeitar quando ele não nos respeita?’. Ok, é seu problema. Mostrando respeito você se enaltece mais e não se rebaixa ao nível dele”.

Dyke disse também que, “se o governo negar acesso a outros jornalistas e a imprensa contestar de maneira substancial e refletiva, as pessoas ficarão indignadas”. Mas neste momento, “só porque Jim Acosta perdeu sua credencial a imprensa não é capaz de realizar seu trabalho?”.

Acosta respondeu à pergunta via Instagram na sexta-feira quando a CNN avaliava se abriria um processo contra Trump. Na selfie que postou ele estava sorrindo, de Ray Ban, e com a Torre Eiffel ao fundo. “Lembranças de Paris” , gracejou. Ele viajou a Paris por conta própria – e não a bordo do Air Force One – para cobrir a visita de Trump. E mostrou que fazer uma reportagem sem uma autorização não é crime. Pelo menos no momento. / Tradução de Terezinha Martino

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