Alex Brandon/AP
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Análise: Manobra de Trump pode minar transição no país africano

Negociação com Sudão parece vitória diplomática, mas antecipou decisão sobre Israel

Ishaan Tharoor*, The Washington Post

24 de outubro de 2020 | 04h00

À primeira vista, a negociação do presidente Donald Trump com o Sudão parece uma vitória diplomática. O país será tirado da lista dos que patrocinam o terrorismo, na qual Sudão está há 27 anos. A exclusão é, sem dúvida, uma boa notícia para a nação africana – estar lá tem impedido o governo local de fazer transações internacionais em dólares e restringido sua capacidade de obter investimentos estrangeiros, ajuda e empréstimos.

Como parte do acordo entre a Casa Branca e o governo de Cartum, o Sudão pagará cerca de US$ 335 milhões em restituição às famílias das vítimas americanas de ataques terroristas contra as embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia, em 1998, e ao USS Cole, em 2000. Na época, o Sudão abrigava redes militantes ligadas à Al-Qaeda

O primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, comemorou a iniciativa, que faz parte do plano de transição democrática do Sudão, com o fim do legado ditatorial do presidente deposto, Omar al-Bashir – deposto em um golpe militar em abril de 2019. 

A Casa Branca, porém, tinha algo diferente em mente. Trump e seus aliados já esperavam que o acordo acabasse levando Cartum a normalizar as relações com Israel. Mas os líderes civis do Sudão talvez preferissem tomar uma decisão sobre Israel só depois que o país realizasse eleições, em 2022. 

Yonatan Touval, analista sênior de política externa do Instituto Israelense de Política Externa Regional, escreveu no jornal Haaretz que o governo Trump “intimida” o Sudão. “Em vez de anunciar uma relação próspera entre os dois lados, a maneira agressiva com que o governo Trump pressiona o Sudão pode minar a delicada transição do país para um governo democrático”, escreveu.

Alguns observadores do Sudão, porém, ainda esperam uma mudança de abordagem. “Nas duas semanas que faltam antes do dia das eleições, o governo faria bem em tirar o Sudão de sua lista de apoiadores de terroristas não apenas como uma vitória diplomática, mas como um passo rumo a uma causa maior, que é alcançar uma transição democrática e pacífica em países africanos”, escreveu Cameron Hudson, membro sênior do Conselho do Atlântico.

* É COLUNISTA DE ASSUNTOS EXTERNOS,  GEOPOLÍTICA E HISTÓRIA 

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