Jason Szenes / EFE
Jason Szenes / EFE

Análise: A obscura conexão entre Trump e a Rússia torna-se pública

Cohen admitiu ter conversado com Trump a respeito de um acordo sobre um encontro entre ele e Putin mais de três vezes durante a campanha

Noah Feldman, Bloomberg, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2018 | 05h00

A principal revelação da nova confissão de culpa de Michael Cohen é a seguinte: o assessor especial do Departamento de Justiça, Robert Mueller, está um passo mais perto de mostrar as ligações entre os interesses comerciais de Donald Trump na Rússia e sua conduta como candidato a presidente.

A informação criminal que deu entrada no Distrito Sul de Nova York por parte dos promotores de Mueller afirma que em um período que durou até meados de junho de 2016, Cohen estava negociando com o secretário de imprensa do presidente russo Vladimir Putin para uma reunião com Putin na Rússia como parte de um acordo que levaria à construção de uma Trump Tower em Moscou.

E de acordo com o documento, Cohen conversou com Trump a respeito do acordo mais de três vezes durante esse período, e perguntou tanto a Trump como a outros altos funcionários de campanha sobre uma viagem de Trump à Rússia em conexão com o acordo.

Cohen está se declarando culpado de mentir ao Congresso ao dizer que essas negociações terminaram em janeiro de 2016 e negando que tenha conversado com Trump sobre elas. Os detalhes que surgem no documento são fascinantes e ricos.

Mas o ponto principal é que Cohen e outros membros da organização Trump estavam empenhados em fazer um acordo com a Rússia que ligava a emergente candidatura presidencial de Trump ao seu interesse comercial a uma Trump Tower em Moscou. E Trump sabia disso, até um ponto que ainda deve ser revelado.

Até agora, muitos especularam que deve haver alguma ligação entre os interesses comerciais de Trump na Rússia e sua campanha. O argumento de Cohen fornece provas mais concretas de tal ligação.

Agora vamos aos detalhes. A história contada pela informação criminal é a seguinte: desde setembro de 2015, a Organização Trump estava busca de um acordo para construir uma Trump Tower em Moscou. Cohen trabalhava para que o acordo fosse fechado.

Em meados de janeiro de 2016, uma pessoa, descrita como “um cidadão americano, intermediário de terceiros” e identificado apenas como “Indivíduo 2” sugeriu a Cohen que ele contatasse o secretário de imprensa de Putin para as ”aprovações” do governo russo. Cohen enviou um e-mail à secretária de imprensa de Putin duas vezes, em 14 de janeiro e 16 de janeiro de 2016.

No dia 20 de janeiro, Cohen recebeu uma ligação da assistente do secretário de imprensa. Eles falaram por 20 minutos e Cohen descreveu o acordo. No dia seguinte, 21 de janeiro, o “Indivíduo 2” escreveu a Cohen que deveria telefonar para eles por causa de Putin, porque “eles ligaram hoje”.

Isso iniciou um período de negociações com duração de seis meses. Aparentemente, o objetivo dos russos era fazer Trump visitar a Rússia e se encontrar com Putin. Cohen perguntou a Trump e outros funcionários da campanha sobre o fato de Trump viajar para a Rússia para a reunião. Cohen iria à Rússia antecipadamente para negociar os detalhes.

Em maio, as coisas esquentaram. O “Indivíduo 2” enviou um e-mail a Cohen explicando a situação presente. “Eu conversei com Moscou”, escreveu ele. SUPONDO que a viagem aconteça, a questão é saber se será antes ou depois da convenção ... Obviamente a viagem pré-encontro (apenas você) pode acontecer a qualquer hora que você quiser, mas os 2 importantes caras são a questão. Eu disse que iria confirmar e retornar.”

Este e-mail deixa claro que havia uma conexão próxima entre o status de Trump como candidato e a visita. Cohen escreveu de volta sobre “Minha viagem antes de Cleveland” - onde a convenção nacional republicana seria realizada a partir de 18 de julho. Trump viajaria para a Rússia “assim que se tornasse o indicado, depois da convenção.”

O “Indivíduo 2” então disse a Cohen que o secretário de imprensa de Putin “gostaria de tê-lo como convidado para o Fórum de São Petersburgo que é a Davos da Rússia, de 16 a 19 de junho. Ele quer se encontrar com você aqui e possivelmente apresentá-lo” a Putin ou ao primeiro-ministro russo, Dmitry Medvedev.

No mês seguinte, o “Indivíduo 2” enviou a papelada de Cohen para um visto, o que Cohen parece ter preenchido. A viagem parecia com um sinal verde a Cohen, mas foi cancelada por volta de 14 de junho de 2016, quando Cohen reuniu-se com o “Indivíduo 2” na Trump Tower para dizer que isso não ia acontecer De acordo com Cohen, o negócio imobiliário também estava de fora naquele momento.

O documento não diz como ou por que a viagem de Cohen foi cancelada. A possibilidade mais lógica é que certamente os assessores de campanha de Trump disseram que ele não poderia ir a Moscou, depois de se tornar o candidato republicano. Então o que tudo isso significa?

Trump e seus partidários sem dúvida insistirão que Cohen e o “Indivíduo 2” eram freelancers, sem realmente representar Trump ou a campanha. Mas o fato de que Cohen manteve Trump no circuito, perguntando a ele sobre uma possível viagem à Rússia, sugere fortemente que Trump sabia que as negociações sobre a Trump Tower de Moscou continuavam durante esse período.

Os partidários de Trump podem acrescentar que não é surpresa descobrir que Trump não interrompeu suas negociações comerciais com a Rússia só porque estava concorrendo à presidência. Ainda assim, é significativo que tais negociações estivessem acontecendo diretamente com o gabinete de Putin, não apenas com os incorporadores imobiliários em Moscou.

Os partidários de Trump também podem apontar que o acordo foi cancelado No entanto, parece provável que o negócio tenha sido cancelado, não porque Trump tenha percebido que estava errado, mas porque conselheiros externos disseram que ficaria mal.

As últimas revelações de Cohen por si só não constituem evidência de um crime ou uma ofensa que valha um impeachment da parte de Trump. No entanto, elas mostram que Trump fez parte de uma negociação que ligava seu status de candidato aos seus interesses comerciais na Rússia. Elas dão à a equipe de Mueller um passo importante para explicar as ligações de Trump com a Rússia durante a campanha.

Feldman é um colunista da Bloomberg Opinion. Ele é professor de Direito na Universidade de Harvard e foi funcionário do Supremo Tribunal dos EUA David Souter. / Tradução de Claudia Bozzo

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