Said Yusuf/ EFE
Said Yusuf/ EFE

Análise: A política externa contraditória do presidente americano 

Trump parece não entender que há uma contradição entre se gabar de sair de 'guerras sem fim' enquanto inicia outras

Max Boot / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 05h00

A doutrina Trump, que podemos chamar de “isolacionismo violento”, nunca fez qualquer sentido. Há muito tempo ele defende que os Estados Unidos ataquem seus inimigos, enquanto retira as tropas dos campos de batalha. Essa incoerência persiste.

Na segunda-feira, o New York Times informou que Trump havia questionado assessores sobre as opções para bombardear a usina de Natanz, no Irã, onde o enriquecimento de urânio aumentou desde que o presidente abandonou o acordo nuclear, em 2018. No mesmo dia, ele mandou reduzir as tropas no Afeganistão, no Iraque e até na Somália.

Trump parece não entender que há uma contradição entre se gabar de sair de “guerras sem fim” enquanto inicia outras. Ou entre celebrar seu sucesso na luta contra o terrorismo enquanto retira tropas de países onde os terroristas operam. Retirar os cerca de 700 soldados que conduzem missões de treinamento e contraterrorismo na Somália desestabilizará o país antes das eleições locais e dará impulso ao Al-Shabab, grupo ligado à Al-Qaeda, que em janeiro atacou uma base aérea dos EUA no Quênia, matando três americanos.

Retirar os 3 mil soldados americanos do Iraque daria um impulso não apenas aos extremistas sunitas no Estado Islâmico (EI), mas também às milícias xiitas apoiadas pelo Irã – como você sabe, o país que Trump parece ansioso para bombardear. E retirar 4,5 mil soldados do Afeganistão daria um grande impulso ao EI e ao Taleban, que se recusou a romper seus laços com a Al-Qaeda e a reduzir os ataques desde a assinatura de um acordo de paz com os EUA, em fevereiro. 

O então secretário de Defesa, Mark Esper, enviou um memorando a Trump, no início deste mês, avisando que toda a cadeia de comando militar se opunha a novas reduções de tropas dos EUA, que eram 12 mil soldados, um ano atrás. Segundo a CNN, Esper argumentou que novos cortes podem prejudicar as forças de segurança afegãs, que dependem do apoio aéreo e da logística americana; alienar aliados, que agora têm mais tropas no Afeganistão do que os EUA; e minar os esforços para fazer com que o Taleban cumpra o acordo de paz.

Em vez de ouvir as preocupações dos militares, Trump demitiu Esper e outros assessores do Pentágono. Em seu lugar, ele instalou uma equipe de fanáticos, como os oficias da reserva Douglas Macgregor e Anthony Tata. Sua missão, evidentemente, é cumprir a promessa de retirada das tropas, sem se importar com as consequências – o presidente não aprendeu nada com a retirada prematura do Iraque, ordenada por Barack Obama, em 2011, que criou um vácuo que permitiu a ascensão do EI e exigiu o retorno dos EUA.

Com seu tempo no cargo se esgotando, os impulsos conflitantes de Trump – intervencionista e isolacionista ao mesmo tempo – estão sendo bloqueados por funcionários responsáveis. Por enquanto, o presidente foi dissuadido de atacar o Irã, alertado que um bombardeio poderia se transformar em um conflito mais amplo nas últimas semanas de seu governo. 

Os generais – ridicularizados por Trump como “idiotas e bebês” – enxergam o que o infantil comandante-chefe não percebe. Primeiro, que ataques aéreos raramente são cirúrgicos ou decisivos – e podem levar os EUA ao lodaçal de uma guerra terrestre. Segundo, que retirar tropas não encerra a guerra. Como no caso do Vietnã, em 1973, apenas aumenta a hostilidade e o risco de derrota para os aliados dos EUA.

Ninguém quer “guerras sem fim”, mas as reduções devem ter como base condições específicas, em vez de ditadas pelos caprichos de um presidente petulante que quer deixar sua base empolgada com um presente de despedida após ser repudiado nas urnas.

*É COLUNISTA E ESPECIALISTA EM SEGURANÇA NACIONAL DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS

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