DIDA SAMPAIO / ESTADAO
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Análise: Aberração e insensatez no dia do diplomata

Ministro das Relações Exteriores demonstrou orgulho de sua diplomacia da destruição, que vem implodindo a reputação internacional do Brasil e o moral interno do Itamaraty

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2020 | 15h30

Se há uma certeza no Itamaraty hoje é que os discursos proferidos pelo Chefe da Casa ficarão marcados na história e na memória da instituição. O aviltamento que tomou conta do Itamaraty ainda é capaz de surpreender a todos os brasileiros, infelizmente.

Em um discurso espantoso, proferido aos 22 de outubro de 2020, em cerimônia que celebrava o dia do diplomata, o atual chanceler não apenas expeliu ideias distorcidas e meias verdades, algo já “normalizado” pelo público em geral, como conseguiu superar suas invectivas prévias contra a instituição Itamaraty, quebrando o protocolo e vertendo estapafúrdias teses.

Ao fazê-lo, demonstrou orgulho patológico à sua diplomacia da destruição, que vem implodindo a um só tempo a reputação internacional do país e o moral interno dessa outrora respeitada instituição chamada Itamaraty, hoje objeto da comiseração internacional.

Alguns artigos de imprensa ressaltaram a parte do discurso em que o ministro se orgulha de ter transformado o Brasil num pária internacional. Calma, dirão na tentativa de normalizar o absurdo em que se transformou nossa diplomacia.

Ele quis dizer que apenas os presidentes do Brasil e dos EUA falaram de liberdade (o que em si já seria uma evidência de descompromisso com os fatos) e que, por isso, seríamos “párias do bem”. Essa afirmação só é verdade na realidade paralela em que vive a ala mais fundamentalista do atual governo, em que a ONU é um ser monstruoso, com vontade própria e capaz de impor valores globalistas às nações.

Quem tem um mínimo de tirocínio sabe que a organização é formada por Estados e voltada para encontrar soluções coordenadas para problemas comuns. Não tem vontade própria e seus acertos e erros derivam da capacidade dos Estados membros de lhe conferirem instrumentos e mandato adequados para cumprir suas funções. Mas nada disse apareceu no discurso, claro.

O mais revoltante na enfadonha retórica do personagem, no entanto, foi a quebra de protocolo. Achincalhou a memória do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto, escolhido como patrono da turma de novos diplomatas do Instituto Rio Branco. No ápice de seu delírio e já totalmente embrenhado no campo da insensatez, comparou-se ao grande João Cabral, ao dizer-se também poeta e diplomata. Criticou o patrono por ter escolhido o lado errado, o da esquerda, legitimando por vias transversas a perseguição de que o homenageado pela turma fora vítima nos anos 50, quando chegou a ser afastado do Itamaraty por suspeita de pertencer ao então ilegal Partido Comunista.

João Cabral nunca foi militante daquele partido, embora isso não venha ao caso. O importante é que sua obra transcende fronteiras políticas e reflete sensibilidade social, a mesma que falta ao chanceler.

O contraste entre a soberba do personagem e a pequenez de suas atitudes, entre o gigantismo do estrago que promove com a conivência de muita gente dentro e fora do governo e a dimensão liliputiana de resultados apregoados como inéditos (muitos dos quais iniciados em gestões anteriores), só não é maior do que a desfaçatez dos que insistem em “passar pano” e se recusam a encarar de frente a monstruosidade com a qual aprenderam a conviver e confraternizar.

O indigitado chanceler é veículo e expressão de um arranjo político e institucional que permite essa política externa hiper-politizada, ideológica e extremista, e uma diplomacia que se tornou instrumento de promoção da política sectária, a ponto de transformar a Fundação Alexandre de Gusmão num centro irradiador de “fake news” perigosas e teorias conspiratórias risíveis.

Os novos alunos do Rio Branco, constrangidos diante da diatribe de seu chefe, tiveram de amargar uma formatura sob a sombra do pensamento fundamentalista e intolerante, que é capaz de cometer à luz do dia o acinte de desprezar João Cabral – e, com ele, na verdade, toda a contribuição intelectual do Itamaraty ao Brasil.

A ignomínia, praticada despudoradamente até mesmo nos momentos mais solenes, como é o caso da formatura do Rio Branco, tornou-se lugar comum, num país que vai perdendo contato com a realidade e com padrões mínimos de decência que se criam parte de nossa identidade e de nossa  sociabilidade.

Aos novos alunos que ingressam na carreira, resta desejar-lhes que não desanimem. O Brasil precisará mais do que nunca de vocês para reconstruir a política externa e resgatar a diplomacia da longa noite a que foi relegada pela distopia incivilizada que desrespeita João Cabral, despreza as Nações Unidas e espezinha os princípios constitucionais que deveriam reger as relações internacionais do país. Quando esse pesadelo passar e a insensatez for superada, caberá a vocês a laboriosa tarefa de retomar a trajetória de um Itamaraty que volte a ser motivo de orgulho e não de vergonha nacional. 

* HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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