Doug Mills/The New York Times
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ANÁLISE: Ação de federais vem após negativa de Donald Trump

A negativa de Trump de que ele tinha conhecimento do pagamento a Daniels e as negações de Cohen e significavam que os dois lados tinham efetivamente dito que o assunto não envolveu comunicações entre advogado e cliente

Aaron Blake, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 05h00

WASHINGTON - O presidente Donald Trump e a Casa Branca recusaram-se durante semanas a responder uma pergunta básica sobre o pagamento a Stormy Daniels: Trump estava envolvido? Finalmente recebemos uma negativa na quinta-feira, e em seguida o advogado que fez o pagamento, Michael Cohen, teve seu escritório invadido na segunda-feira.

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Então, será que esses dois eventos têm algo a ver um com o outro? Alguns especialistas em direito dizem que é bem possível. Eles dizem que a negativa de Trump de que ele tinha conhecimento do pagamento a Daniels, combinada com negações de Cohen e do advogado David Schwartz, significava que os dois lados tinham efetivamente dito que o assunto não envolveu comunicações entre advogado e cliente. E dado que as exigências requeridas para se invadir o escritório de um advogado são maiores, isso poderia ter sustentado o caso para uma incursão.

O ex-promotor federal Patrick Cotter disse que as negações duplas “permitiram aos procuradores que buscavam um mandado de busca para o escritório de Cohen, dizer ao tribunal que aprovou o mandado que as duas únicas pessoas na terra que poderiam ter alegado que qualquer coisa relacionada às ações de Cohen a respeito do assunto foi coberta pelo sigilo advogado-cliente, estão ambas agora negando isso oficialmente.”

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Cotter acrescentou: "A afirmação de Trump certamente tornou muito mais fácil obter o mandado, pelo menos para materiais relacionados à situação de Stormy". David Super, professor da Universidade de Georgetown, disse que as negações de forma alguma aumentaram as perspectivas de uma incursão.

“As negativas também deram aos promotores uma razão para acreditar que Cohen estava agindo por conta própria e não em sua capacidade de representante”, disse Super. Outros especialistas, porém, foram mais cépticos. Eles enfatizaram que esses tipos de invasão exigem um imenso planejamento e que, mesmo que o comentário de Trump possa ter causado isso de alguma forma, era provável que acontecesse em semanas.

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“A decisão de invadir o escritório de Cohen foi muito importante, e ela não resultaria de nenhum comentário informal de Trump", disse o ex-promotor federal Peter Zeidenberg, que acrescentou: "Além disso, os agentes do governo estão sob grande pressão para sustentar que a declaração (de Trump) foi considerada verdadeira." 

O ex-assessor do Departamento de Justiça, Harry Litman, disse que também duvidava que o ataque estivesse relacionado aos comentários de Trump, e ainda afirmou que os investigadores teriam que tratar a situação como se estivessem lidando com materiais confidenciais – incluindo os de outros clientes de Cohen.

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"Caso contrário, o cálculo básico - legal e tático - de se fazer a busca não teria variado, com base na suposição de que talvez eles tivessem sorte e encontrariam alguns documentos incriminadores não confidenciais”, disse Litman.

Mesmo que a negativa de Trump não tenha ajudado a desestabilizar a situação, isso poderia causar um possível processo criminal contra Cohen - e, por fim, os investigadores podem esperar por um acordo se Cohen cooperar com a investigação de Robert Mueller sobre a Rússia. (A equipe de Mueller não realizou a invasão, mas forneceu um encaminhamento ao Procurador dos EUA para o Distrito Sul de Nova York. E nada impediria o gabinete do procurador dos EUA de garantir sua cooperação com Mueller como parte de um acordo judicial.)

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Trump tuitou terça-feira de manhã que “o sigilo entre advogado e cliente está morto”, mas seus comentários na quinta-feira sugeriram que ele e Cohen nunca conversaram sobre o pagamento a Daniels. Isso significaria, como sugeriu Super, que Cohen não estava atuando como representante legal de Trump no caso e que ele não poderia defender tal proteção - pelo menos em relação ao caso de Daniels.

Cotter acrescentou: “Você não poderia fornecer consultoria e serviços jurídicos se não estivesse atuando como advogado, nem poderia prestar serviços jurídicos protegidos pelo privilégio entre cliente e advogado a um cliente que desconhece completamente o que você está fazendo”.

Talvez isso seja pelo menos parte da razão pela qual a Casa Branca e Trump passaram tanto tempo visivelmente evitando responder a uma pergunta tão básica. / Tradução de Claudia Bozzo

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