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Análise: Acordo de cessar-fogo de Trump consolida ganhos da Turquia na Síria

E o custo para a influência americana, embora difícil de quantificar, pode ser assustadoramente alto

David Sanger e Eric Schmitt / NYT, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 06h00

WASHINGTON - O acordo de cessar-fogo alcançado com a Turquia pelo vice-presidente americano, Mike Pence, equivale a uma vitória quase total para o presidente da  Turquia,  Recep Tayyip Erdogan, que ganha território, paga poucas penalidades e parece ter superado em astúcia o presidente Donald Trump.

O melhor que pode ser dito quanto a esse argumento é que ele pode parar a matança no enclave curdo no norte da Síria. Mas o custo para os curdos, aliados americanos de longa data na luta contra o Estado Islâmico, é severo: até oficiais do Pentágono ficaram confusos sobre para onde iriam dezenas de milhares de curdos deslocados, se eles forem para o sul da fronteira Turquia-Síria, conforme exigido pelo acordo – caso concordem em ir.

E o custo para a influência americana, embora difícil de quantificar, pode ser assustadoramente alto.

Nos 11 dias entre o fatídico telefonema de Trump e Erdogan e a viagem a Ancara de Pence e do secretário de Estado Mike Pompeo na quinta-feira, os Estados Unidos cederam terreno na Síria - incluindo bases americanas - ao ditador sírio apoiado pela Rússia, Bashar Assad. E isso abalou a fé dos aliados americanos de que, em um momento de pressão, Washington lhes dará apoio.

"Isso parece uma rendição completa dos EUA para tudo o que os turcos exigiram”, disse Eric S. Edelman, ex-embaixador na Turquia e alto funcionário do Departamento de Defesa do governo George W. Bush. “Não vejo do que os turcos desistiram.”

De fato, se as sanções impostas contra a Turquia pelo governo Trump forem revogadas, como Pence disse que agora serão, o líder turco pagaria um preço muito mais baixo do que a Rússia pela anexação da Crimeia em 2014. As sanções impostas a Moscou então ainda estão em vigor.

Mas há outros vencedores além de Erdogan, que derrotou os grupos curdos que ele considera  terroristas que viviam em um protetorado americano.

O principal deles é o presidente Vladimir Putin, da Rússia, que ganha grande influência em um setor estratégico do Oriente Médio, onde, até 2015, ele não tinha quase nenhuma. Agora, ele é um participante, e já está preenchendo o vácuo territorial e político que Trump deixou depois que ele concordou em sair do caminho da invasão turca da Síria, que um pequeno contingente de forças das Operações Especiais dos EUA estava lá para impedir apenas com sua presença.

O Irã também é um vencedor. Há muito tempo usa a Síria como uma rota para enviar mísseis ao Hezbollah e mostrar sua força em toda a região. Essa é, de muitas maneiras, a parte mais desconcertante da decisão do presidente de se retirar, porque contraria sua campanha de “pressão máxima” contra os líderes clericais do Irã e a Guarda Revolucionária.

E Assad, que mal se manteve no poder após a Primavera Árabe em 2011, e cujas instalações militares Trump bombardeou nos primeiros meses de sua presidência, em 2017, recebeu nova chance de vida. Os americanos se foram da área de seu país que chegaram a ocupar.

Trump tem uma visão diferente - sem surpresa, dada a crítica bipartidária de seu fracasso em deter Erdogan durante a conversa por telefone ou ameaçar sanções antes da invasão, em vez de depois que os fatos mudaram no terreno.

“Estou feliz em relatar um tremendo sucesso em relação à Turquia”, disse Trump a repórteres depois que seu vice-presidente e secretário de Estado anunciaram o acordo. “Este é um resultado incrível. Este é um resultado, independentemente de como a imprensa gostaria de diminuir, isso era algo que eles estavam tentando alcançar por dez anos.”

A alegria de Trump pode refletir uma visão de mundo muito diferente da de seus militares, diplomatas ou líderes republicanos que dizem que ele prejudicou a reputação e a influência dos Estados Unidos. Enquanto seu partido, e os democratas, o acusavam de trair aliados e ajudar a Rússia, Trump insistia que ele estava cumprindo uma promessa de campanha para trazer as tropas para casa de “guerras intermináveis”.

Na quarta-feira, enquanto Pence e Pompeo voavam para Ancara, a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosiestava questionando o presidente sobre se havia alguma lógica estratégica para sua retirada da Síria - especialmente se isso resultou na libertação de combatentes do Estado Islâmico detidos que agora podem atacar na região ou nos Estados Unidos.

Na quinta-feira, recontando sua discussão acalorada com Pelosi no dia anterior, ela disse que perguntou a ele como sua estratégia se encaixava com o anúncio na sexta-feira passada de que cerca de 3 mil soldados ou mais estavam sendo enviados à Arábia Saudita. O presidente respondeu que os sauditas estavam pagando o custo desse envio - sugerindo que Trump estava feliz em comprometer as tropas com o maior lance entre os aliados americanos, em vez de fazer um julgamento independente sobre sua importância estratégica.

Os republicanos também contestaram o acordo alcançado em Ancara. “O anúncio  está sendo retratado como uma vitória. Está longe de ser uma vitória”, disse o senador Mitt Romney, republicano. “Dados os detalhes iniciais do acordo de cessar-fogo, o governo também precisa explicar qual será o futuro papel dos Estados Unidos na região, o que acontecerá agora com os curdos e por que a Turquia aparentemente não enfrentará consequências."

E Romney observou: “O cessar-fogo não muda o fato de os EUA terem abandonado um aliado”.

No Pentágono, na tarde de quinta-feira, altos funcionários se esforçaram para entender como deveriam cumprir o acordo que Pence e Erdogan haviam negociado.

Várias autoridades civis e militares reclamaram que o acordo amplamente divulgado deixou grandes brechas políticas e logísticas a serem preenchidas, com muitas perguntas sobre como cumprir os compromissos dos dois lados que pareciam contradizer a situação que mudava rapidamente no terreno.

Com a retirada de cerca de mil americanos já em andamento, perguntaram as autoridades: como essas forças em partida conduziriam operações de contraterrorismo com as forças armadas turcas, como Pence insistiu que elas fariam? Será que os curdos sírios cumpririam plenamente um acordo de retirada sobre o qual tiveram pouco a dizer na sua elaboração e no qual eles eram claramente os perdedores?

Suas perguntas não pararam por aí. Qual é o tamanho e a profundidade da área de proteção dentro da Síria que deveria dar à Turquia uma zona segura entre sua fronteira e os combatentes curdos? A zona segura original que os Estados Unidos e a Turquia imaginavam tinha 120 quilômetros de comprimento por cerca de 32 quilômetros. Mas foi derrubada pela aquiescência de Trump à invasão, e agora as forças turcas foram além disso.

E quanto às forças de Assad e de seus aliados russos – que foram procurados pelos curdos sírios depois que os americanos os abandonaram?

Também não se sabe se a Turquia será obrigada a retirar todas ou algumas de suas forças enviadas para a fronteira soberana para a Síria. (Uma autoridade disse que a razão pela qual a Turquia concordou com o acordo na quinta-feira é porque os curdos apresentaram mais resistência, e as forças turcas não conseguiram avançar mais para o sul).

Decisão de Trump causou choque em Washington

Vários funcionários do Pentágono e do Departamento de Estado e oficiais militares que trabalharam na política da Síria ou se deslocaram para o noroeste do país expressaram choque, indignação e descrença na segunda maior capitulação do governo a Erdogan em menos de duas semanas.

Essas autoridades disseram que Erdogan foi o grande vencedor e parecia ter conseguido tudo o que queria.

Oficiais militares disseram estar chocados com o fato de o acordo permitir essencialmente que a Turquia anexasse uma parte da Síria, desalojando dezenas de milhares de residentes curdos e apagando anos de ganhos contra o terrorismo do Estado Islâmico. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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