Anthony Wallace / AFP
Anthony Wallace / AFP

ANÁLISE: África do Sul deixou programa nuclear bem mais modesto

Autoridades americanas têm discutido o modelo de desnuclearização da África do Sul, no fim da Guerra Fria, como um exemplo de como a Coreia do Norte pode abandonar as próprias armas

Adam Taylor / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2018 | 05h00

Pouco antes do início da histórica cúpula do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, com o presidente dos EUA, Donald Trump, em Cingapura, o Wall Street Journal afirmou que autoridades americanas têm discutido o modelo de desnuclearização da África do Sul, no fim da Guerra Fria, como um exemplo de como a Coreia do Norte pode abandonar as próprias armas. É uma ideia interessante, mas com severas limitações.

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A África do Sul abandonou seu programa de armas nucleares um pouco depois de o presidente Frederik de Klerk assumir, em 1989, alguns anos antes do fim do apartheid e de a minoria branca deixar de governar o país. Até hoje, a África do Sul é o único exemplo de país que desistiu voluntariamente das armas poderosas que havia desenvolvido. 

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Existem alguns elementos do modelo sul-africano que parecem atraentes. De Klerk disse, em entrevista à revista americana Atlantic, em setembro, que “a lição do que se aprendeu na África do Sul, em um contexto mais amplo que o das armas nucleares, é que apenas por meio de negociações – se somente os oponentes conversarem entre si – a paz pode ser alcançada”. 

No entanto, existem diferenças reais entre o modelo sul-africano e qualquer futura desnuclearização norte-coreana. A África do Sul abandonou seis armas nucleares. As agências de inteligência dos EUA estimam que a Coreia do Norte possua até 60 ogivas nucleares e uma quantidade considerável de tecnologia relacionada. “Dado o tamanho e o alcance dos mísseis e do programa nuclear da Coreia do Norte, o desmantelamento excederá todos os precedentes passados”, explicou a diretora de política de não proliferação da Associação de Controle de Armas, Kelsey Davenport. 

Existem grandes diferenças de motivação nos dois casos, tanto quanto ao desejo de ambos de adquirir armas nucleares, como ao desejo de se livrar delas. A África do Sul havia procurado armas no auge da Guerra Fria. De Klerk disse que o país esperava utilizar o conhecimento como um alerta para a União Soviética, que estava apoiando movimentos de libertação na África na época. Com o fim da Guerra Fria, a África do Sul enfrentou um universo político totalmente diferente – não apenas internacionalmente, mas também internamente, já que estava claro que o modelo de apartheid não sobreviveria. De Klerk decidiu pela desnuclearização de forma unilateral, e em segredo, com pouca interferência externa. 

Já na Coreia do Norte, a dinastia de Kim começou sua busca por armas nucleares depois do colapso da União Soviética, que deixou o país sem um grande aliado em meio às tensões não resolvidas com os EUA e com a Coreia do Sul. Suas armas nucleares são uma moeda de barganha útil para sua atual situação geopolítica, e há pouca preocupação com a queda delas em um governo sucessor.

“Não há motivação suficiente para Kim Jong-un”, diz Alexandra Bell, diretora das políticas do Centro de Controle de Armas e Não Proliferação, especialista em controle de armas do Departamento de Estado dos EUA durante o governo de Barack Obama. “Sua família investiu décadas na criação de um arsenal nuclear norte-coreano. Ele não vai desistir facilmente e, certamente, não sem grandes garantias econômicas.” 

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