Bill O'Leary/WP
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Análise: Alterar a dosagem da vacina é a nova aposta para conter o vírus

Cada dia de redução de infecções pode significar muitas vidas salvas, mas vale o risco?

Sam Fazeli*, The Washington Post

06 de janeiro de 2021 | 04h00

Todos os países que estão impondo bloqueios por causa do aumento das taxas de infecção por coronavírus – como o Reino Unido fez na segunda-feira – tentam reduzir o fardo da doença. A melhor solução, é claro, são as vacinas, presumindo que elas sejam administradas com base em dados gerados a partir de testes clínicos. Mas o que acontece quando os protocolos não são seguidos?

O Reino Unido, em seu desejo de vacinar o maior número de pessoas o mais rápido possível, deu um passo sem precedentes ao implementar um regime de vacinas que não foi testado e não possui dados de eficácia sólidos que o apoiem: está estendendo o período entre a primeira e a segunda injeção dos dois imunizantes que aprovou – da Oxford-AstraZeneca e Pfizer-BioNTech – de 3 para 12 semanas. 

O país não está sozinho e Alemanha e Dinamarca já planejam fazer o mesmo. Também há uma discussão sobre o tema nos EUA, que inclui até uma alteração dos níveis de dosagem para permitir que os atuais estoques cheguem a mais pessoas mais rapidamente. Essas decisões estão sendo tomadas e discutidas por especialistas altamente respeitados, que têm motivos para acreditar que os ajustes podem ajudar no esforço de inoculação, mas não tenho certeza se há dados suficientes para apoiar essas medidas.

O Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido, por exemplo, baseou sua decisão usando dados de ensaios da vacina Moderna, ainda não aprovada no país.

Há ainda a questão de quão mais rápido o Reino Unido pode realmente vacinar sua população. Tomemos a vacina AstraZeneca como exemplo, que tem como objetivo fornecer 2 milhões de doses por semana. Isso significa que até junho, 26 milhões de pessoas podem receber duas doses.

Com o intervalo de 12 semanas, cerca de 26 milhões de pessoas poderiam ter recebido uma única injeção até o fim de março, em comparação com cerca de 18 milhões com um intervalo de quatro semanas. Levaria apenas mais dois meses para chegar a 26 milhões com o regime mais curto. Cada dia de redução de infecções pode significar muitas vidas salvas, mas vale o risco de dar a uma porcentagem significativa de pessoas um nível mais baixo de imunidade, aumentando as chances de variantes futuras do vírus? 

Sem a ciência para fazer o backup ou outras precauções postas em prática, não vale. 

 

*É ANALISTA FARMACÊUTICO SÊNIOR DA BLOOMBERG INTELLIGENCE E DIRETOR DE PESQUISA DA AGÊNCIA EUROPEIA DE MEDICAMENTOS

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