KAMIL KRZACZYNSKI / AFP
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Análise: Americanos ainda precisarão da voz que propõe o impossível

Como muitos radicais, Sanders passou muito mais tempo pensando em como traduzir seus princípios em políticas do que em como transformar suas propostas em leis

Paul Waldman / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 03h00

Bernie Sanders suspendeu sua campanha. Em declaração ao vivo, ele se concentrou na “luta ideológica”, que ele insiste ter vencido. Isso pode ser entendido como uma luta para mudar o equilíbrio entre imaginação e praticidade.

Como muitos radicais, Sanders passou muito mais tempo pensando em como traduzir seus princípios em políticas do que em como transformar suas propostas em leis. Ele acredita que, se você limitar suas ideias ao que parece possível, você cederá ao establishment, pois é ele que controla o que é politicamente possível. Enquanto você fizer isso, mudanças profundas nunca ocorrerão.

Do outro lado está Joe Biden, que apoiaria muitas propostas de Sanders, se pudesse estalar os dedos e fazê-las acontecer. Mas, como muitos democratas, Biden entende as restrições do Congresso, de grupos de interesse e da opinião pública – e tenta criar propostas que se encaixem a essas restrições.

É por isso que as ideias de Biden estão mais à esquerda do que as de Barack Obama. Não porque ele seja mais radical, mas porque o espaço político expandiu-se e hoje propostas como um salário mínimo de US$ 15 por hora são mais viáveis. Sanders diz que é por causa dele. O que é verdade, pelo menos em parte. 

Mas Biden tem um bom argumento ao seu lado, que é a diferença entre ser presidente e ser ativista. Como candidato, Sanders pode defender um sistema de saúde universal, mas um presidente precisa de apoio para aprovar uma reforma desse tamanho.

Encontrar o equilíbrio entre ideias e restrições políticas é um dos principais desafios de um governo. Portanto, essa será a tarefa de Sanders, se Biden for eleito: ser a voz da imaginação e pressionar Biden a não aceitar tão facilmente as restrições da política.

Não estava nos planos de Sanders se tornar presidente – e talvez seja melhor assim. Ele já mostrou que, do lado de fora, pode ajudar a expandir o escopo do possível. 

*É COLUNISTA

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