Análise: americanos estão brincando com fogo diante da ameaça supremacista branca

Bandeiras nazistas e confederadas são igualmente desagradáveis para os milhões de americanos que perderam parentes no Holocausto ou têm vívidas memórias da incansável opressão racial

Petula Dvorak/ The Washington Post*, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2017 | 05h00

O presidente Donald Trump acendeu cada uma daquelas tochas em Charlottesville. Sim, os supremacistas brancos sempre estiveram entre nós. Uma marcha de racistas fanáticos não é surpresa para qualquer pessoa familiarizada com nossa história, especialmente aqueles que têm sido o alvo de ódio e violência há séculos.

Mas quando a multidão de homens brancos desfilava em Charlottesville, carregando tochas flamejantes na sexta-feira à noite, gritando "Heil Trump" como preliminar para um dia de violentos con frontos com os opositores aos protestos, que deixaram três pessoas mortas, mostraram ao mundo que os Estados Unidos estão mais uma vez brincando com fogo.

E Trump é quem está com os fósforos.

O simbolismo não foi sutil. Tochas, campanhas de perseguição, cruzes em chamas - tudo isso remete à consolidação de nosso país. Todos aqueles irmãos white-power sabiam exatamente o tipo de medo que tentavam evocar, mesmo se suas tochas tenham vindo do pátio de liquidações da temporada na Home Depot, varejista de produtos para o lar e construção.

As bandeiras nazistas e confederadas são igualmente desagradáveis para os milhões de americanos que perderam parentes no Holocausto, na luta contra Hitler ou têm vívidas memórias da incansável opressão racial, incluindo linchamentos, bombas em igrejas e assassinatos nas mãos da Ku Klux Klan e de outros terroristas da supremacia branca.

Agora vemos a transmissão ao vivo daquele mesmo ódio, enquanto Trump o ignora. Foi há 90 anos que Fred Trump, o pai de Donald Trump, foi preso por não conseguir dispersar-se de uma manifestação da Ku Klux Klan em Queens muito parecida com o que foi visto em Charlottesville.

Só que hoje em dia, não há os capuzes.

Donald Trump deu a todos a permissão de tirar tais capuzes com seu piscar de olhos, sinais de aprovação e recusa em assumir uma postura moral na questão do rancor racial e da intimidação durante sua campanha e durante os primeiros seis meses de sua presidência. Ele já gastou anos colocando em dúvida o local de nascimento e a legitimidade do presidente Barak Obama, o primeiro negro no posto de comandante supremo da nação. E aqueles que odeiam o amam por isso.

No sábado, o presidente manteve o silêncio durante horas, em seu clube de golfe em Nova Jersey, mesmo que o ex-grande mago da KKK David Duke tenha declarado Charlottesville como "momento decisivo" para um movimento que pretende "cumprir as promessas de Donald Trump".

Primeiro, ele apresentou um vago tuíte, condenando o ódio sem qualquer referência explícita às centenas de homens, alguns deles usando chapéus vermelhos prometendo Tornar os Estados Unidos Grandes Novamente, que cantavam "Vidas de brancos importam", "Vocês não vão nos substituir" e "Judeus não vão nos substituir".

Foi só depois que um jovem de 20 anos de Ohio arremessou seu automóvel contra um grupo de manifestantes contra a marcha supremacista, ferindo 19 e matando uma mulher, que Trump referiu-se ao ataque terrorista em seu próprio território.

"Nós condenamos nos termos mais vigorosos possíveis essa ofensiva demonstração de ódio, fanatismo e violência de muitos lados. De muitos lados," ele disse.

Errado.

"Há apenas um lado", replicou sucintamente pelo Twitter o ex-vice-presidente Joe Biden.

Trump tem tanto medo de ofender sua tribo das tochas, que nem mês usou o "eu" em sua débil declaração.

No domingo de manhã, sua filha Ivanka Trump finalmente referiu-se ao câncer que está no centro desse terrorismo doméstico.

"Não deveria haver lugar na sociedade para racismo, supremacia branca e neonazistas", ela declarou no Twitter.

Ela, porém, não é a comandante-chefe.

Nós somos aqueles que têm extinguir o incêndio que o nosso presidente ateou. Democratas, republicanos, independentes, não importa. Todos nós devemos rejeitar o que foi desencadeado nesse país. E isso já está acontecendo.

O ex-governador republicano de Arkansas, Mike Huckabee, pai da secretária de imprensa de Trump, Sarah Huckabee Sanders, também mandou mensagem pelo Twitter: "Os disparates da supremacia branca são o pior tipo de racismo - é diabólico e uma perversão da verdade de Deus sequer pensar que nosso Criador dê mais valor a alguns que a outros".

O senador Orrin G. Hatch, republicano de Utah, concordou; "Devemos chamar o diabo pelo seu nome. Meu irmão não deu a vida combatendo Hitler para que ideias nazistas continuem sem serem contestadas aqui em casa".

As tochas em Charlottesville são um perigoso mostruário na guerra de culturas em curso nos Estados Unidos.

Precisamos parar de atribuir o reaparecimento do racismo a desigualdades de renda ou perda de empregos e incluí-lo no grande conflito que abrange republicanos versus democratas, progressistas versus conservadores, setor urbano versus o rural, que está no centro do debate na nossa sociedade.

A Universidade da Virgínia, onde os extremistas brancos realizaram sua marcha com as tochas acesas, é o lar de James Davison Hunter, o sociólogo que ajudou a definir a guerra cultural americana contemporânea. Em 1992 - quando a eleição presidencial americana foi abalada pelo debate sobre a personagem de uma mãe solteira (Murphy Brown) - Hunter lembrou-nos que tais escaramuças culturais não são apenas retóricas ou "palavrório político".

"De forma cumulativa, tais disputas equivalem a uma luta fundamental sobre os `princípios básicos' que adotaremos para ordenar nossa vida juntos", escreveu Hunter no Washington Post. "Por meio dessas questões aparentemente discrepantes nós nos encontraremos, ou em outras palavras, em um esforço para nos definir como americanos e decidir qual tipo de sociedade queremos construir e manter".

Sim, existem muitos lados na guerra de culturas na qual os racistas continuam tentando engatar também seu vagão flamejante.

Mas essa abominação que ocorreu em Charlottesville no fim de semana não está em debate. Não é uma postura cultural ou plataforma política. Racismo, fanatismo e terrorismo em nome de um nacionalismo branco não é um "lado". É um veneno.

E fazer qualquer outra coisa além chamá-lo pelo que é, identificando-o e apagando-o é simplesmente contrário às instituições americanas.  /Tradução de Claudia Bozzo

 

*É JORNALISTA

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