Análise: Anos 20 começam com uma hipótese de uma nova guerra

Cenário seria de um conflito limitado, de perfil convencional; no entanto, embate seria ‘total’ nos meios utilizados e objetivos a serem alcançados

José Niemeyer*, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 18h24

O ataque desferido pelos EUA contra alvos iranianos em Bagdá pode ser o início de uma escalada estratégico-militar que faça irromper a primeira guerra dos anos 20 deste século 21.

Esta seria uma guerra sistêmica, ou como muitos chamam, uma 3.ª Guerra Mundial? Não. Neste caso o cenário seria de uma guerra de desenho limitado, regional e, no seu início, de perfil convencional. Mas seria uma guerra "total" no quesito de meios utilizados e objetivos a serem alcançados.

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Não sabemos como o Irã revidará o ataque. Se utilizando de estratégias e táticas mais erráticas e informais, com até o uso indiscriminado de atentados contra alvos norte-americanos no Oriente Médio e no próprio território dos EUA, ou se o Irã atacará formalmente algum aliado dos Estados Unidos na região, como Israel ou a Arábia Saudita.

Na verdade, esta hipótese de guerra entre EUA e Irã esconde outras agendas destes países.

No caso dos EUA, uma guerra no Oriente Médio pode fazer com que os apoiadores de Trump para as eleições de novembro fiquem mais alvoroçados e defendam o presidente a qualquer custo, inflamados pelas questões ligadas à segurança da nação.

Já para o Irã, este conflito potencial pode se configurar como uma oportunidade para uma ação contra a Arábia Saudita, por exemplo, potência regional que disputa liderança com o Irã na região. 

Na perspectiva do teatro de operações em si, uma guerra limitada, não nuclear (no seu início) e regional entre EUA e Irã teria muitos desdobramentos.

Analisemos apenas um dos cenários possíveis: se os EUA fossem atacados por ações não-formais e se alvos civis do país fossem atingidos em grande escala – uma ação terrorista de algum grupo radical ligado ao governo do Irã, por exemplo –, os EUA contra-atacariam o Irã se utilizando dos seus meios convencionais básicos. 

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Nesse contexto, parte - somente parte -, dos 1,28 milhão efetivos e dos 6.827 tanques de guerra seriam levados ao Oriente Médio; a Força Aérea norte-americana mobilizaria também parte das suas 13.398 aeronaves, sendo 2.362 caças e 2.831 bombardeiros a solo; e a Marinha dos EUA realocaria algumas dezenas dos seus 415 navios de guerra para o entorno do Oriente Médio. Além de alguns dos porta-aviões e submarinos de ataque.  

A força militar descrita acima representa autonomia estratégica, força avassaladora e mobilidade impressionante, mesmo sem contar com nenhum meio nuclear das 6.185 armas deste tipo ativas dos EUA.  

Já o Irã ficaria aguardando o inimigo com meios e processos militares menos potentes quando comparamos à disponibilidade total de ambos os países: 523 mil efetivos, 1.634 tanques de guerra, 509 aeronaves – sendo 142 caças e 165 bombardeiros de ataque a solo –, 398 navios de guerra, além do uso de 34 submarinos. O Irã não conta, formalmente, com nenhuma arma atômica ativa.

O ‘X’ da questão é que em uma guerra entre os EUA e o Irã possivelmente o teatro de operações se desenrolaria no Irã, e os EUA não disponibilizariam – definitivamente – todos os seus recursos militares para este objetivo. 

Diferentemente do Irã, que esgotaria todos os seus meios e processos para a defesa do território. Seria uma guerra assimétrica na alocação de recursos. Mas de resultado pouco conhecido quando pensamos em capacidade de resistência do Irã e custo político para os EUA. 

* É doutor em Ciência Política pela USP e Coordenador da Graduação em Relações Internacionais do Ibmec/RJ.

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