Kerem Yucel / AFP
Kerem Yucel / AFP

Análise: Antissemitismo se espalhou pelo mundo islâmico

Durante a maior parte da história, o Oriente Médio muçulmano foi hospitaleiro para os judeus, quando a Europa cristã os estava matando ou expulsando

Fareed Zakaria* / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2019 | 05h00

Nas últimas semanas, a atenção se concentrou em duas novatas no Congresso, as democratas Ilhan Omar e Rashida Tlaib, ambas muçulmanas que fizeram declarações críticas a Israel e seus mais fervorosos defensores americanos. Seus tuítes e comentários foram retratados por alguns não só como críticas a Israel, mas como evidência de uma onda crescente de antissemitismo na nova esquerda.

Eu não sei o que há nos corações das duas deputadas. Mas acredito que os muçulmanos devem ser particularmente cuidadosos ao falar sobre essas questões, porque o antissemitismo se espalhou pelo mundo islâmico como um câncer. Omar e Tlaib não são responsáveis por isso, é claro, mas deveriam estar cientes desse clima venenoso. 

Em 2014, a Liga Antidifamação fez uma pesquisa em mais de 100 países sobre atitudes em relação aos judeus e descobriu que o antissemitismo era duas vezes mais comum entre os muçulmanos do que entre os cristãos, embora seja bem mais predominante no Oriente Médio do que nas Américas. Às vezes, tragicamente, foi além dos sentimentos, transformando-se em ataques terroristas contra judeus, até mesmo crianças, em países como a França.

Isso pode surpreender pessoas para as quais nem sempre foi assim. De fato, durante a maior parte da história, o Oriente Médio muçulmano foi hospitaleiro para os judeus, quando a Europa cristã os estava matando ou expulsando. O historiador Bernard Lewis certa vez me disse: “As pessoas, em geral, notam que, no fim dos anos 40 e 50, centenas de milhares de judeus fugiram de países árabes. Eles raramente perguntam por que, em primeiro lugar, tantos judeus viviam nessas terras.”

Polêmicas

Em seu livro Judeus do Islã, Lewis ressalta que, na Idade Média, quando as polêmicas contra os judeus eram comuns no mundo cristão, elas eram raras no mundo islâmico. Nos primeiros séculos do domínio islâmico, escreve ele, havia “uma espécie de simbiose entre judeus e seus vizinhos que não tem paralelo no mundo ocidental entre as eras helenística e moderna. 

Judeus e muçulmanos tinham contatos extensos que envolviam questões sociais, bem como associações intelectuais – cooperação, união, até amizade pessoal”. Não se deve exagerar o status dos judeus naquela época – eles eram cidadãos de segunda classe –, mas eram tolerados e encorajados em um grau muito maior nas sociedades muçulmanas do que nas cristãs.

As coisas mudaram no mundo muçulmano apenas no fim do século 19, quando, segundo Lewis, “como resultado direto da influência europeia, os movimentos aparecem entre os muçulmanos dos quais, pela primeira vez, se pode legitimamente usar o termo antissemita”. 

Muçulmanos temiam que os britânicos, que vieram a dominar grande parte do Oriente Médio, estivessem favorecendo as pequenas comunidades não muçulmanas, especialmente os judeus. Os muçulmanos começaram a importar analogias antissemitas europeias, como a noção de “libelo de sangue” (acusação falsa contra judeus de assassinatos rituais, em geral de crianças), e trabalhos antissemitas nocivos começaram a ser traduzidos para o árabe, incluindo os notórios Protocolos dos Sábios de Sião.

O que alimentou todas essas atitudes foi a fundação de Israel, em 1948, e a determinação dos líderes árabes de derrotá-lo. Em seu zelo de deslegitimar o Estado judeu, homens como o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser promoveram todos os tipos de literatura e retórica antissemitas. 

Lavagem cerebral

Os Estados árabes tornaram-se vastas máquinas de propaganda para o antissemitismo, fazendo a lavagem cerebral de várias gerações do seu povo com as ideias mais odiosas sobre os judeus. Até mesmo o presidente supostamente secular da Síria, Bashar Assad, declarou, em 2001, que os israelenses estavam “tentando matar todos os valores das religiões divinas, com a mesma mentalidade que provocou a traição e tortura de Cristo e da mesma maneira que eles tentaram trair o profeta Maomé.” Estados religiosos como a Arábia Saudita eram tão ruins quanto, se não piores.

Décadas de propaganda tiveram efeito. O antissemitismo é agora um discurso rotineiro nas populações muçulmanas. Enquanto alguns governos árabes se retraíram da promoção ativa do ódio, o dano já estava feito.

Deveria ser possível criticar Israel. Como escreveu Peter Beinart, “estabelecer dois sistemas legais no mesmo território – um para judeus e outro para palestinos – é fanatismo". E durou mais de meio século. “Deveria ser possível falar sobre a enorme influência política do Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (Aipac). Eu me lembro de senadores preocupados que, se eles apoiassem o acordo nuclear com o Irã, o Aipac os atacaria. 

Essas são questões legítimas a serem debatidas e discutidas nos EUA, assim como em Israel. Infelizmente, ao manifestar-se sobre a questão como as duas deputadas fizeram é desperdiçar uma oportunidade de aprofundar esse importante debate. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO


*É COLUNISTA

 

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