AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Análise: Após teste, Trump mostra-se mais duro com Coreia do Sul

Presidente americano criticou posição pacifista do presidente Moon Jae-in

Glenn Thrush, Gardiner Harris e Emily Cochrane / NYT, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2017 | 05h00

O presidente Donald Trump qualificou o maior teste nuclear da Coreia do Norte como “muito hostil e perigoso”, mas suas críticas mais duras foram dirigidas contra a Coreia do Sul, país aliado dos EUA, que ele acusa de tentar “apaziguar” a situação. Trump manifestou sua frustração com Pyongyang em três tuítes que foram mais tênues do que os insultos e ameaças dirigidos anteriormente contra o líder norte-coreano Kim Jong-un.

Mas também pelo Twitter ele criticou duramente o novo governo liberal do presidente sul-coreano, Moon Jae-in, em meio a uma disputa que vem se intensificando envolvendo um acordo comercial que ameaça debilitar uma parceria fundamental na região e num momento em a Coreia do Norte acelera suas atividades para desenvolver uma ogiva nuclear capaz de atingir o continente americano. 

“A Coreia do Sul está percebendo, como já afirmei, que essa sua conversa de “apaziguamento” com o Norte não vai dar certo, os norte-coreanos só entendem uma coisa!”, escreveu no Twitter. De certo modo Trump foi mais moderado em suas críticas contra o principal aliado da Coreia do Norte, a China, que há décadas fornece ajuda econômica e diplomática ao país. Nos últimos dias, Trump vem afirmando que mais sanções, juntamente com ameaças tácitas e explícitas de uma ação militar, estimulariam Pyongyang a mudar de atitude. 

Robert Eihorn, especialista na área da não proliferação nuclear e ex-funcionário do Departamento de Estado, afirmou que as críticas de Trump ao líder sul-coreano são equivocadas. “Moon na verdade tem apoiado, e muito, a estratégia dos EUA de máxima pressão, mas também engajamento. Nada do que ele fez até agora aparenta apaziguamento”.

Para Ely Ratner, funcionário do alto escalão do Departamento de Segurança Nacional no governo Obama, as críticas de Trump à Coreia do Sul chegam num momento em que os sul-coreanos estão submetidos a uma considerável pressão econômica por parte da China pela decisão de autorizar os EUA a instalar um sistema antimísseis.

“Numa circunstância em que vamos necessitar de uma boa cooperação não só com a Coreia do Sul, mas também a China, ele ataca todos em vez de procurar construir apoio e coordenação”, disse Ratner. Mas segundo ele, este teste nuclear poderá finalmente impelir a China, que considera os testes nucleares mais graves do que os lançamentos de mísseis balísticos, a exercer uma pressão mais vigorosa contra seu vizinho.

Einhorn, contudo, manifesta dúvidas. “Parece haver um limite quanto ao sofrimento que a China está disposta a infligir à Coreia do Norte, e não acho que este teste mudará isto”, afirmou.

No sábado, antes do teste, membros de alto escalão do governo confirmaram que estão analisando a saída de um importante acordo comercial com a Coreia do Sul, pois, segundo elas, o país insiste em suas políticas protecionistas desleais que têm provocado enormes déficits comerciais com os Estados Unidos.

O senador Jeff Flake, republicano do Arizona, membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado, alertou para as graves consequências se os Estados Unidos se retirarem do acordo. “Não acho que isto será bom em nenhuma circunstância. E agora é particularmente preocupante, diante da situação enfrentada pela Coreia do Sul. Acho que precisamos de mais comércio, não menos, e a saída de acordos comerciais é um sinal muito inquietante”, disse o senador no programa State of the Union, da CNN.

As autoridades sul-coreanas, afastando-se da posição do governo conservador anterior, têm insistido em negociações com os norte-coreanos como um meio de diminuir as tensões na Península Coreana.

Em julho, o principal assessor de segurança nacional de Moon, Chung Eui-yong, solicitou ao assessor de segurança nacional de Trump, o general H.R. McMaster, para ele conseguir aprovação, com base em um tratado bilateral, para a construção de mísseis mais poderosos com o objetivo de conter a crescente ameaça da Coreia do Norte.

Na mesma ocasião, o vice-ministro da Defesa da Coreia do Sul, pediu a Pyongyang a retomada das conversações de paz que estão suspensas desde 2015.

Trump defende uma política menos conciliatória. Quando Kim ameaçou lançar mísseis contra o território americano de Guam, em julho, o presidente reagiu com ameaças veladas no Twitter e depois provocou o jovem líder norte-coreano, dizendo “esse sujeito não tem coisa melhor para fazer na vida?”.

Nas últimas semanas Trump e seu secretário de Estado, Rex Tillerson vinham manifestando otimismo, achando que a Coreia do Norte se mostrava mais controlada depois de o presidente ter ameaçado responder à Pyongyang com “fogo e fúria”. Tillerson chegou mesmo a sugerir que as duas semanas de relativa calma talvez pudessem abrir um “caminho” para o diálogo. Mas a Coreia do Norte, a título de provocação, lançou um míssil balístico que sobrevoou o Japão na semana passada e neste domingo realizou esse importante teste nuclear.

Do ponto de vista do comércio, os assessores econômicos do presidente estão muito divididos quanto a uma saída do Acordo de Livre Comércio entre Estados Unidos e Coreia do Sul, num momento em que os dois países procuram reformular o tratado assinado há cinco anos.

Nos últimos dias Trump, demonstrando frustração, insistiu para sua equipe adotar uma ação ousada contra uma série de governos, incluindo o de Seul, que ele acusa de práticas comerciais desleais. Mas muitos dos seus assessores mais moderados, entre eles o diretor do Conselho Nacional Econômico, Gary Cohn, acham que essa medida resultará numa guerra comercial que afetará a economia americana.

A publicação especializada em comércio, Inside U.S.Trade, foi quem primeiro noticiou, na sexta-feira, que o governo analisava a saída do tratado já na próxima semana. Durante uma viagem à Costa do Golfo no sábado, Trump foi questionado se estava discutindo acordo comercial dos seus assessores, e ele respondeu: “Sim. Estou pensando muito a respeito”.

A ideia de uma saída teria resultado de uma paralisação nas negociações entre autoridades sul-coreanas e o representante comercial dos Estados Unidos Robert E. Lighthizer, segundo fonte próxima das conversações.

Mas há dúvidas quanto a se o governo realmente abandonará o acordo, e representantes do setor dizem que a equipe do presidente tem trabalhado pouco no assunto – não tendo feito ainda uma ampla consulta junto aos setores afetados, o que é necessário antes de se adotar uma medida como essa. A possibilidade de abandonar o acordo alarmou os economistas e alguns membros do próprio partido do presidente, que temem que tal medida leve a Coreia do Sul a fechar um mercado lucrativo para fabricantes e agricultores dos Estados Unidos.

Extinguir o acordo também teria profundas implicações geopolíticas na região, opinou Michael J. Green, do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, que trabalhou no governo do presidente George W. Bush. “Uma das grandes razões pelas quais decidimos firmar o acordo foi demonstrar a sul-coreanos, norte-coreanos e chineses que os Estados Unidos estavam empenhados numa relação de longo prazo”, disse Green. Para ele é assombroso o fato de o governo pensar em cancelar esse acordo em meio a essa crise com a Coreia do Norte.

“Provavelmente é tudo teatro, mas com consequências estratégicas negativas neste momento em que tentamos controlar a ameaça norte-coreana” disse Green. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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