Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Análise: Aposta americana nos sauditas fica mais arriscada

Washington depende de Riad em temas-chave de política externa no Oriente Médio, como o isolamento econômico do Irã e os conflitos em andamento em Iraque, Síria e Iêmen, mas crescimento da oposição ao reino pode ser problema pra Trump

Matthew Lee* / AP, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2018 | 06h00

Desde seus primeiros dias de governo, Donald Trump e sua equipe de política externa colocaram o reino saudita e o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman como âncoras de toda a estratégia americana para o Oriente Médio. Do Irã e Iraque até a Síria, Iêmen, incluindo o conflito entre Israel e Palestina, o governo americano apostou que a Arábia Saudita, efetivamente governada pelo príncipe, poderia liderar - e se dispor a pagar - a chamada “Pax Arábica” numa parte do mundo da qual Trump deseja se desvincular.

Por quase dois anos, em meio a uma crise que ainda persiste com o Catar e uma indignação internacional pelas vítimas civis da campanha liderada pelos sauditas contra os rebeldes iemenitas, o príncipe conseguiu manter a confiança de Washington. Mas agora a situação está se invertendo diante da fúria com o desaparecimento do jornalista Jamal Khashoggi.

Mesmo que uma investigação exonere o príncipe e a liderança saudita, a confiança do governo americano está abalada - e não apenas em razão do repúdio manifestado pelos dois partidos no Congresso. Parlamentares, democratas e republicanos, já vêm sugerindo que está na hora de se rever as relações com os sauditas e reduzir fortemente as vendas de armas para o país.

O senador Lindsey Grey, da Carolina do Sul, um aliado de Trump, e outros congressistas influentes, alertaram para as nefastas consequências do caso, dizendo que o príncipe, conhecido como MBS, deveria ser removido do cargo.

“Esse indivíduo é uma bola de demolição, a pessoa foi morta em um consulado na Turquia, e esperam que eu ignore isto, sinto-me usado e abusado”, afirmou Graham no programa Fox and Friends. “A Arábia Saudita, se você vem acompanhando, tem muitas pessoas boas que podem ser escolhidas, mas MBS tem manchado o seu país e ele próprio”.

O senador democrata de Connecticut Chris Murphy, adversário de Trump, disse que o caso Khashoggi “deve provocar uma revisão fundamental da aliança dos Estados Unidos com os sauditas”. “À medida que o novo príncipe adota um comportamento temerário, nos perguntamos se as ações do nosso aliado correspondem aos nossos melhores interesses”, escreveu Murphy no The Washington Post.

Para o senador Marco Rubio, republicano da Flórida, a situação é “catastrófica” para os sauditas e “vai mudar a relação dos Estados Unidos com a Arábia Saudita em um futuro próximo”. “Um temor já antigo que temos é de que o príncipe seja uma pessoa jovem e agressiva que vem superestimando o espaço que tem para agir, suas próprias capacidades e criou um problema como este”, afirmou.


Embora a possibilidade seja remota, o impacto dessa questão pode provocar uma comoção em todo o mundo, desestabilizando os mercados de petróleo e o clima global de investimentos, sem falar no abalo provocado nos próprios planos do governo Trump para o Oriente Médio.

O genro e assessor de Trump, Jared Kushner, colocou a Arábia Saudita no centro do seu ainda não divulgado plano de paz entre palestinos e israelenses, que deve contemplar enormes contribuições sauditas e do Golfo para financiar a reconstrução e projetos de desenvolvimento na Cisjordânia e em Gaza.

O apoio saudita também será chave no tocante aos aspectos políticos desse plano que Israel insiste que colocará sua segurança no mesmo nível de um possível Estado palestino. Isso significa que Israel provavelmente exigirá garantias de que qualquer acordo com os palestinos seja acompanhado por um tratado mais amplo que normalize suas relações com o resto do mundo árabe, particularmente a Arábia Saudita.

Na Síria, o governo depende quase que inteiramente da Arábia Saudita, junto com seu aliado Emirados Árabes Unidos, para contrabalançar os drásticos cortes na ajuda americana para áreas libertadas dos militantes islâmicos. E no Iraque o atual secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, e seu predecessor Rex Tillerson, contavam vigorosamente com os sauditas para fazer grandes promessas de reconstrução das comunidades destruídas pela guerra.

Mas a política de isolar o Irã adotada pelo governo Trump é a que pode ser mais prejudicada por este distanciamento nas relações entre americanos e sauditas. Trump conta com os sauditas para consolidar e complementar sua política para Teerã em várias frentes.

No Iêmen, onde a coalizão liderada pelos sauditas e apoiada pelos EUA combate a insurgência Houthi, os esforços para conter a influência do Irã serão prejudicados por qualquer redução da ajuda americana.

Na Síria, onde os fundos sauditas para estabilização do país têm sido usados para impedir que prepostos iranianos se insiram em comunidades que antes estavam em mãos do Estado Islâmico, uma redução da cooperação saudita permitirá ao Irã agir livremente. O mesmo vale para o Iraque, onde o investimento saudita é considerado crucial para impedir que o Irã conquiste mais base de apoio do que já tem nesse país de maioria xiita.

E o mais importante é que o governo americano conta com a Arábia Saudita para intervir e impedir uma disparada dos preços do petróleo quando forem restauradas as sanções decretadas contra o Irã que foram suspensas em 2015 quando da assinatura do acordo nuclear do qual Trump depois se retirou. Relações rompidas com Washington podem levar Riad a reduzir qualquer aumento na oferta de petróleo para compensar a perda da commodity iraniana.

Naturalmente a aposta de Trump ainda pode dar bons resultados se a investigação da morte da Khashoggi for considerada confiável e os responsáveis forem punidos, como Trump, Mike Pence e Pompeo exigiram. Mas com a posição contrária aos sauditas crescendo nos corredores de Washington, Trump pode chegar à conclusão de que sua aposta plena no príncipe foi um fracasso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* Matthew Lee é jornalista especializado em diplomacia

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