REUTERS/Miraflores Palace
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Análise: Aprofundamento da crise preocupa setores militares

A possibilidade de uma ruptura interna, nas bases e quartéis, inquieta a administração em Caracas e preocupa os governos da região – o do Brasil entre eles

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

06 Abril 2017 | 05h00

Os militares da Venezuela, cerca de 133 mil homens e mulheres, não gostam da crise que destruiu a economia e estão inquietos com a incerteza interna, agravada pela intervenção do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) na Assembleia Nacional. A possibilidade de uma ruptura interna, nas bases e quartéis, inquieta a administração em Caracas e preocupa os governos da região – o do Brasil entre eles.

De acordo com um analista brasileiro do setor de inteligência, “as organizações fardadas estão divididas entre os conservadores, apreensivos com a perspectiva de um conflito interno que ponha em ameaça a integridade do Estado, e os socialistas, alinhados com o governo, que acreditam na revolução como meio de união nacional”. O especialista considera significativo que o empresariado da poderosa região agrícola das planícies centrais e das savanas tenha se retirado em bloco do conselho econômico do governo. 

As Forças Armadas e o regime bolivariano mantêm uma relação difícil desde a revolta de 2002, abortada em dois dias pelo então presidente Hugo Chávez, afastado do poder e reconduzido ao Palácio Miraflores. Imediatamente após o curto golpe, Chávez iniciou um processo de esvaziamento dos quadros e de popularização da oficialidade. A Venezuela manteve por um período de ao menos dois séculos uma certa aristocracia militar das ricas famílias ligadas ao agronegócio. Em pouco mais de dois anos quase todos os comandantes e chefes haviam sido afastados pelo presidente. 

O projeto era linear e previa a promoção do pessoal da base, os soldados bolivarianos, e a qualificação acelerada. Ao mesmo tempo, Chávez deu início a um bilionário programa de compras de equipamentos. Contratou ao longo do tempo gastos estimados em US$ 15 bilhões. O imenso esforço não contemplou, todavia, investimentos na modernização da infraestrutura ou dos conceitos profissionais da tropa. O grupo de combatentes é grande, mas apenas um pequeno número de times das forças especiais pode ser definido como bem preparado.

A mudança mais radical talvez tenha sido sentida na Aeronáutica, fortemente dominada pela classe média. A debandada foi intensa. Pilotos, engenheiros e especialistas em manutenção foram parar na iniciativa privada, onde os salários podem chegar a US$ 10 mil. A Força Aérea tem 24 caças Su-30, e não consegue lançar no ar mais de quatro unidades simultaneamente. Falta gente.

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