Photo by MANDEL NGAN / AFP
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Líderes árabes dão resposta tímida a plano de paz de Trump

Nenhum dos aliados árabes dos Estados Unidos endossou formalmente a proposta, mas alguns consideram uma oportunidade para retomar as negociações

Ben Hubbard e Declan Walsh, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 12h18

BEIRUTE - Ao apresentar seu plano para solucionar o conflito entre Israel e os palestinos, o presidente americano, Donald Trump, confiantemente declarou que os países árabes terão um papel chave no sucesso desse plano.

O premiê israelense, Binyamin Netanyahucelebrou o plano como "um dia histórico", mas o presidente palestino, Mahmud Abbas, que rejeitou nos últimos meses as ofertas de diálogo de Washington, afirmou que o plano "não passará".

O plano da Casa Branca daria a Israel soberania sobre o Vale do Jordão, uma grande área estratégica da Cisjordânia ocupada desde 1967 onde o Exército israelense acaba de fortalecer sua presença, e que se transformaria na fronteira leste de Israel.

Mas nenhum dos aliados árabes dos Estados Unidos endossaram formalmente a proposta ou prometeram respaldá-la, o que levanta dúvidas sobre até que ponto eles se envolverão para que esse plano se materialize.

Trump anunciou seu plano na Casa Branca ao lado do primeiro ministro de Israel Binyamin Netanyahu, e o qualificou como necessário para a segurança de Israel e uma oportunidade para os palestinos se autogovernarem e desenvolverem sua economia.

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“Existem muitos países que desejam participar disto”, disse ele a Netanyahu, acrescentando que “você vai ter um apoio tremendo dos seus vizinhos e outros mais além”.

Mas não há sinais claros de que esse apoio exista. Embora três embaixadores estivessem presentes, de Omã, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, no momento do anúncio, não havia nenhum representante palestino.

“Não conseguiram encontrar um único palestino para participar?”, perguntou Daoud Kuttab, jornalista e colunista palestino do Al-Monitor, um website de notícias.

E apesar de Egito e Israel manterem tratados de paz com Israel e Trump ter escolhido a Arábia Saudita como primeiro país a visitar quando assumiu a presidência, “nenhum deles estava presente”, observou Kuttab.

Durante décadas a causa palestina foi um tema que uniu os árabes em todo o Oriente Médio. Mas nos últimos anos, ela foi perdendo importância à medida que o processo de paz desmoronava.

Alguns líderes árabes passaram a se concentrar na sua segurança e problemas econômicos domésticos. Outros, incluindo nações do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita e Emirados Árabe Unidos, passaram a ver o Irã como a maior ameaça na região e Israel um aliado potencial contra os iranianos.

As preocupações com o Irã “se tornaram muito mais existenciais do que a questão palestina”, disse Kuttab; “Eles temem que sua presença física seja ameaçada pelo Irã, muito mais do que Israel”, afirmou o jornalista.

Mas, apesar de todas as mudanças, os líderes árabes evitaram apoiar publicamente o plano de Trump.

Em seu discurso na Casa Branca, na terça-feira, Trump agradeceu a Omã, Bahrein e Emirados Árabes Unidos “pelo incrível trabalho que fizeram ajudando-nos tanto”, e observou que seus embaixadores estavam presentes. Mas mesmo esses países não endossaram formalmente o plano. Outros países assumiram uma posição notoriamente comedida.

O ministério do Exterior do Egito, o primeiro país árabe a firmar um tratado de paz com Israel, elogiou os esforços de Trump, mas sua declaração não foi além dos limites da política há muito tempo adotada pelo Egito com relação ao conflito entre Israel e palestinos.

“O Egito reconhece os esforços incessantes do governo Trump para pôr fim ao conflito”, diz o comunicado. E encoraja ambas as partes a retomarem as conversações que no final devolvam aos palestinos “seus direitos plenamente legítimos por meio do estabelecimento de um Estado soberano independente”.

O comunicado, cuidadosamente formulado, foi uma expressão clara de apoio ao presidente americano, se não ao plano, por parte do presidente egípcio Abdel-Fattah al-Sissi, que Trump certa vez chamou de “meu ditador favorito”.

O governo americano atualmente vem intermediando uma disputa envolvendo o Egito, sediando negociações entre autoridades do Egito, Etiópia e Sudão no caso de uma polêmica hidrelétrica de US$ 4 bilhões que a Etiópia está construindo.

A Jordânia, país aliado dos Estados Unidos que firmou acordo de paz com Israel, nitidamente ignorou o plano de Trump e reafirmou seu compromisso para com as demandas palestinas que a proposta da Casa Branca ignorou, entre elas as fronteiras gerais de um Estado palestino com Jerusalém Oriental como capital.

Em comunicado, o ministro do Exterior Ayman Safadi declarou que a Jordânia continuará trabalhando com os países árabes e a comunidade internacional “para se alcançar uma paz justa e duradoura que atenda a todos os direitos legítimos do povo palestino”.

A Arábia Saudita também elogiou os esforços de Trump, mas não endossou seu plano. Se os aliados dos Estados Unidos reagiram cautelosamente à proposta, os adversários criticaram duramente o país pelo seu apoio a Israel.

O Hezbollah, grupo militante libanês e partido político, qualificou o plano de Trump de “acordo vergonhoso” e apontou um dedo acusador para os países árabes que se aliaram com os Estados Unidos.

“Este acordo não teria sido formalizado sem a cumplicidade e a traição de diversos regimes árabes, secreta e publicamente envolvidos nesta conspiração”, declarou o grupo em seu comunicado.

Em grande parte do mundo árabe, o plano foi recebido com indignação, humilhação ou resignação. A hostilidade para com americanos e israelenses se equiparou à sensação de desilusão entre alguns árabes para com seus próprios líderes.

“Farsas históricas vêm se repetindo”, disse Gamal Eid, veterano ativista de direitos humanos no Cairo. “Desde a miserável Declaração Balfour de 1917 à grotesca Declaração de Trump e Países Árabes, todas são ou inúteis ou entusiastas”.

Nabil Fahmy, ex-ministro do Exterior do Egito, disse temer que a proposta não só impeça a paz na região, mas também aniquile as chances de uma paz duradoura.

“Apresentar a proposta desta maneira, é querer vê-la rejeitada”, disse ele. “E se você rejeita este acordo está destruindo os princípios do processo de paz e todas as possibilidades de avanço. É assombroso”.

Para muitos o plano é mais uma etapa tenebrosa do que os árabes veem como décadas de abandono da causa palestina pelos Estados Unidos.

Sentimentos de pesar e amplo desapontamento permearam alguns comentários, uma percepção de que uma causa que uniu o Oriente Médio por décadas vem desaparecendo silenciosamente, perdendo sua relevância e que os árabes comuns simplesmente perderam o interesse nela.

Alguns afirmam que os jovens árabes estavam apenas preocupados com a violência e agitação política após as revoltas ocorridas em vários países árabes em 2011, ou foram silenciados.

“Se os governos da região fossem representantes da vontade do seu povo, talvez as vozes árabes fossem mais fortes”, disse Timothy E. Kaldas, analista do Tahrir Institute for Middle East Policy, no Cairo. “Mas com a repressão extraordinária que a região tem observado, com regimes não interessados em temas cruciais dentro dos seus próprios países, é muito difícil ver o que a sociedade nesses países pode de fato fazer”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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