Stephen Crowley/The New York Times
Stephen Crowley/The New York Times

Análise: As contradições de Stephen Bannon 

O principal ideólogo da era Trump é, sem dúvida, Stephen Bannon; ele é inteligente, muito instruído e tem domínio da história americana

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 05h00

Talvez seja apenas o meu caso, mas depois de algumas semanas da presidência Trump, entre tuítes, decretos, ataques e contra-ataques, fiquei atordoado. Por isso, decidi dar um descanso no foguetório diário e tentar encontrar o sinal em meio aos ruídos: o que está por trás da filosofia desse governo?

O principal ideólogo da era Trump é, sem dúvida, Stephen Bannon. Ele é inteligente, muito instruído e tem domínio da história americana. Dei uma espiada em muitos de seus filmes e discursos, e neles ele não se destaca como o racista ou supremacista branco que o acusam de ser, mas um conservador incomum. Estamos acostumados a conservadores que são verdadeiros libertários em economia, mas Bannon representa a escola mais antiga de pensamento europeu desconfiada do livre-comércio, determinada a preservar a cultura e a religião tradicionais, e celebra despudoradamente valores nacionalistas e marciais.

O cerne da visão de Bannon pode ser encontrado em seu filme Generation Zero. O filme trata da crise financeira de 2008 e as cenas de abertura, em sua fúria contra banqueiros, poderiam ter sido escritas por Bernie Sanders. Mas depois o filme chega a seu ponto de vista real: a crise financeira ocorreu em razão de uma crise moral maior. O filme atribui a culpa aos anos 60 e aos baby boomers (as primeiras gerações pós-2.ª Guerra) que “destruíram as estruturas tradicionais da sociedade” e criaram uma “cultura de narcisismo”.

Segundo Bannon, a ruptura de valores obsoletos resultou numa cultura de autossuficiência que media tudo e todos de uma maneira: dinheiro. O filme prossegue para acusar o establishment político e financeiro de trair seu país ao aprovar acordos de livre-comércio que o beneficiaram, mas esvaziaram o americano do interior.

Curiosamente, a visão pessimista, distópica de Bannon é mais próxima da de Howard Zinn, o popular pesquisador de extrema esquerda cuja obra A People’s History of the United States é uma narrativa das muitas maneiras em que 99% dos americanos foram esmagados pelas elites poderosas. 

Uma versão mais precisa da história americana recente mostraria que a virada cultural que começou nos anos 60 foi alimentada por uma força poderosa, profundamente americana – o individualismo. Os EUA sempre foram individualistas. Tanto Bannon quanto Trump parecem nostálgicos de uma época – dos anos 30 aos 50 – que foi uma aberração na história da nação. A Grande Depressão e a 2.ª Guerra criariam um impulso coletivista que transformou o país. Depois de um tempo, os americanos começaram a reafirmar seu antigo desejo por liberdade, satisfação e progresso individuais. O mundo dos anos 50 parece bom, a menos que você seja uma mulher querendo trabalhar, um negro querendo votar ou um imigrante querendo progredir.

Os EUA que permitiam a indivíduos progredir nos anos 80 e 90, é claro, eram o ambiente onde o jovem e empreendedor Bannon saiu de um grande banco para criar seu próprio negócio, fazer seus próprios acordos e ganhar uma pequena fortuna, tornando-se um empreendedor político completamente fora da hierarquia republicana. Esses EUA permitiram que o atual e extravagante patrão de Bannon trocasse o Queens por Manhattan, construísse arranha-céus e também sua celebridade, horrorizando o establishment nessa escalada. Trump é, sem dúvida, o modelo ideal da cultura do narcisismo.

No processo de construção de suas carreiras, Trump e Bannon romperam com o tradicionalismo de todas as maneiras. Suas histórias são as histórias dos EUA modernos. Mas sua mensagem ao país parece ser antiga e familiar: façam o que eu digo, não façam o que eu faço. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É COLUNISTA

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