Reprodução / fakenewsgame.org
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Análise: As ‘fake news’ que os russos ouvem sobre a Europa

As táticas de desinformação da Rússia foram notícia nos últimos tempos. Mas a transformação dos meios russos de comunicação não aconteceu da noite para o dia

Anne Applebaum / W. POST, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 05h00

As táticas de desinformação da Rússia foram notícia nos últimos tempos. Mas a transformação dos meios russos de comunicação não aconteceu da noite para o dia. 

Em 2010, a internet na Rússia era um lugar relativamente dinâmico, onde pessoas com diferentes tipos de ideias discutiam ideias, pelo menos em parte do tempo. A mídia independente teve alguma força e vozes independentes foram ouvidas. Havia histórias negativas sobre o mundo ocidental, mas também positivas. 

Oito anos depois – em seguida ao retorno de Vladimir Putin à presidência e uma drástica mudança na política de informação do governo - a situação é outra.  Isto não é porque a Rússia se tornou a União Soviética, ou um Estado totalitário com um jornal. 

A Rússia agora tem múltiplas fontes de informação: diferentes canais de televisão, muitos com programas de entretenimento de alta qualidade; uma variedade de jornais, alguns muito profissionais; revistas e sites tanto intelectualizados como populares. Mas a aparência de variedade é enganosa. 

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Embora os estilos sejam muito diferentes, a vasta maioria dos meios de comunicação é de propriedade de empresas estaduais ou ligadas ao Estado, e as histórias costumam ser notavelmente parecidas. Na televisão, que é de onde a maioria dos russos recebe suas notícias, muito do que eles veem sobre o Ocidente é impressionantemente sombrio e negativo.  

Uma pesquisa recente dos três principais canais de televisão russos produziu uma análise implacável do que os russos estão ouvindo sobre a Europa. Pesquisadores examinaram noticiários e programas de entrevistas políticas do verão de 2014 a dezembro de 2017. Concluíram que as notícias negativas sobre a Europa apareciam em média 18 vezes por dia, nos três canais. 

A porcentagem de notícias negativas a positivas a respeito dos países europeus é de 85% a 15%; para alguns países europeus, o coeficiente é ainda mais distorcido. A França - talvez porque a sua eleição presidencial mais recente contou com Marine Le Pen, uma candidato claramente pró-Rússia que perdeu para um pró-europeu - foi retratada negativamente com maior frequência.  

A maioria das histórias, variando de grandes eventos a notícias locais de assassinatos, até pura invenção (“o governo alemão está tirando crianças para longe de suas famílias e as entregando a casais gays") se encaixam em um conjunto particular de narrativas. 

A vida diária na Europa é descrita como assustadora e caótica; os europeus são fracos, com moralidade em declínio e sem valores comuns; o terrorismo mantém as pessoas paralisadas de medo; a crise dos refugiados está piorando dia a dia; as sanções contra a Rússia saíram pela culatra e agora estão minando a economia europeia e destruindo o estado de bem-estar social. 

A Rússia, nessa versão do mundo aqui descrita, não precisa de um estado de bem-estar, já que seus cidadãos são muito mais resistentes.  

Esta pesquisa ecoa estudos anteriores, tais como um divulgado no ano passado, que também observou quantas vezes a União Europeia é mostrada pela mídia russa como agressiva e intervencionista, alternadamente planejando usar a Ucrânia como lixeira para resíduos nucleares, ou meramente forçando seus membros a adotarem políticas “russofóbicas”.  

Os usos desse tipo de cobertura não são difíceis de imaginar. Claramente, não é do interesse do Estado russo que a nação russa admire a Europa, nem sua democracia ou seu estado de direito, e certamente não pelo seu elevado padrão de vida. 

A lembrança do protesto Maidan de 2014 - jovens ucranianos protestando em Kiev, agitando bandeiras europeias e pedindo o fim da corrupção - ainda é recente que baste para ser assustadora em Moscou. Se o regime de Putin pode minar a ideia de "Europa" e torná-la pouco atraente para os russos - a maioria dos quais há muito se identifica como europeus -, então ela remove uma fonte de esperança e um possível modelo. 

Se a Europa é louca, doente, perigosa e agonizante, então certamente os russos estão em melhor situação sob seu sistema autoritário corrupto.  Poderia haver um propósito mais sinistro para essas implacáveis más notícias também, particularmente porque elas ecoam uma cobertura igualmente dura dos Estados Unidos e da Ucrânia. 

Se a Rússia estava esperando ou planejando algum tipo de conflito com a Europa - diplomático, econômico, político, até mesmo militar - essa é exatamente a estratégia usada pelos líderes russos: retratar os vizinhos da Rússia como simultaneamente agressivos e fracos, decadentes e perigosos; mostre a Europa como uma sociedade que uma Rússia melhor e mais forte poderia - e deveria - facilmente esmagar. Talvez isso seja excessivamente pessimista. Mas, por outro lado, é difícil explicar por que Moscou se daria a esse trabalho. / Tradução de Claudia Bozzo

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