AP Photo/Dolores Ochoa
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Análise: As lições da Venezuela para os socialistas americanos

A chamada revolução bolivariana de Chávez transformou uma nação pacífica e de classe média num pesadelo que causaria inveja à arruinada União Soviética dos anos 1980

Noah Smith, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2019 | 05h00

Não dá para exagerar quão desastroso tem sido para a Venezuela o reinado de Hugo Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro. Uma recente série de reportagens da Bloomberg mostrou com avassaladora clareza o que é a infernal e interminável luta pela sobrevivência em Caracas, a capital do país. Crianças famintas vagam pelas ruas, pessoas estão fugindo,  o sistema de saúde quase não existe mais, a violência é endêmica e até a água é escassa. A chamada revolução bolivariana de Chávez transformou uma nação pacífica e de classe média num pesadelo que causaria inveja à arruinada União Soviética dos anos 1980.

É importante para outros países – incluindo os ricos, como os Estados Unidos – não ignorar a Venezuela, mas tomá-la como alerta. Políticos como o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez abraçaram o socialismo, assim como muitos jovens americanos. Mas quais são as lições que vêm da Venezuela? Por que o país se transformou num caso tão desesperador?

Defensores da revolução bolivariana costumam justificar o regime Chávez-Maduro com a alegação de que a penúria do país é decorrente de forças externas. Alguns argumentam, por exemplo, que foi a queda no preço do petróleo no final de 2014 e em 2015 que afundou o país. A Venezuela é um país que vive do petróleo – o óleo respondeu por 95% das exportações venezuelanas em 2014; logo, um declínio acentuado de preços é naturalmente um golpe para a economia do país.

Entretanto, embora os preços baixos sem dúvida dificultem as coisas para a Venezuela, o petróleo não é o culpado inicial do colapso. A Venezuela parou de divulgar muitos de seus indicadores econômicos em 2014. Mas outros petro-Estados – Arábia Saudita, Rússia, Nigéria, Angola e Kwait – viram seus ingressos estagnar ou mesmo cair depois de 2014, sem contudo passar por nada remotamente parecido com a devastação que assola a Venezuela.

E nem o país ficou sob ataque das potências capitalistas. Com o presidente Barack Obama, os Estados Unidos impuseram sanções contra uns poucos funcionários venezuelanos em 2015, e o presidente George W. Bush recusou-se a vender armas à Venezuela. Mas essas não foram sanções amplas, com potencial para afetar seriamente a economia do país. Nenhum exército ou ataques aéreos “reacionários” devastaram cidades venezuelanas. O empobrecimento da Venezuela deve-se a suas próprias ações.

Críticos da Venezuela também podem ser afoitos demais. É fácil declarar que o socialismo sempre fracassa. Mas a Bolívia, outro país latino-americano dependente de exportação de matérias-primas, elegeu um socialista, Evo Morales, em 2006. E a Bolívia está se saindo muito bem. Seu padrão de vida, que ficou estagnado por 30 anos, melhorou rápida e acentuadamente desde que Morales assumiu o poder. Ao mesmo tempo, a Bolívia conseguiu reduzir fortemente a desigualdade. E, apesar de preocupantes sinais de que Morales está ficando mais autoritário, a Bolívia não experimentou nada parecido com a devastação que aflige seu ideologicamente afim vizinho do norte.

Então, se não foram os preços do petróleo, as pressões externas ou as inevitáveis tendências erradas do socialismo, o que foi que afundou a Venezuela? É difícil identificar os exatos erros políticos que Chávez e Maduro cometeram, mas três fracassos se destacam: má gestão macroeconômica, nacionalização da indústria e interferência na empresa estatal de petróleo.

O maior flagelo da economia venezuelana tem sido a hiperinflação, que torna a poupança impossível. Mesmo que a renda acompanhe os preços, a incontornável imprevisibilidade que ocorre quando os preços sobem de 20 a 40 vezes em um ano torna muito difícil planejar o consumo. A pessoa calcula que uma refeição no dia seguinte vá custar apenas 10 milhões de bolívares, mas ela pode custar 20 milhões – o que significa que ou se come imediatamente ou se arrisca a ficar sem comer. É também muito difícil para as empresas, mesmo as estatais, planejar seus investimentos quando o preço desses investimentos é altamente incerto.

A hiperinflação levou o governo – previsivelmente – a impor o controle de preços. Isso provocou escassez de produtos básicos, o que, por sua vez, fez as pessoas se voltarem para o corrupto e muito menos eficiente mercado negro.

Não está claro como a hiperinflação começa – controle de preços, desvalorização da moeda e déficit fiscal podem ajudar a acelerá-la, e uma vez que ela ganha força fica difícil de ser controlada. A Venezuela deveria ter percebido a aproximação da ameaça, já que sua taxa de inflação crescia assustadoramente ano após ano. Os líderes do país, no entanto, só fizeram agravar o problema. A Bolívia, enquanto isso, tratava de manter a inflação num nível muito baixo.

Outro grande erro foi a nacionalização em larga escala da indústria e a expropriação de propriedades privadas. Chávez orgulhava-se de nacionalizar todo tipo de empresa, estrangeira ou nacional. Esse é um meio seguro de arruinar o setor privado – se empresários nacionais e investidores estrangeiros não veem segurança para suas propriedades, eles param de investir e os negócios definham. Isso pode levar a uma espiral na qual o governo é forçado a nacionalizar cada vez mais a economia, enquanto o setor privado recua.

Morales, em contraste, tem sido muito mais cuidadoso com as nacionalizações na Bolívia, geralmente limitando-as a petróleo, gás e ao setor elétrico – que são indústrias centralizadas, estáveis, nas quais a propriedade estatal é comum em todo o mundo.

Por último, os líderes da Venezuela interferiram na azeitada operação de uma empresa que já era do governo – a Petroleos de Venezuela SA,ou PDVSA, a companhia petrolífera estatal. A PDVSA antes operava de forma independente, mas Chávez intrometeu-se em seus negócios – demitindo funcionários e substituindo-os por apaniguados, cortando investimentos e tirando dinheiro para seus próprios objetivos, e fechando ou expropriando holdings com sócios estrangeiros que ajudavam a empresa a manter a produção.

Sem surpresa, o resultado é que o investimento venezuelano em petróleo entrou em colapso, a infraestrutura petrolífera está desmoronando e a produção se acha em queda livre – isso tudo num país que tem as maiores reservas mundias comprovadas de petróleo.

Socialistas dos Estados Unidos deveriam tomar nota: se existe alguma forma correta de se governar com o socialismo, não é a da Venezuela. Em  lugar de adotar políticas cautelosas como as da Bolívia, os líderes da Venezuela preferiram ignorar a ameaça da hiperinflação, nacionalizar indústrias privadas em toda a economia e tumultuar a boa operacionalidade da PDVSA. O resultado era previsível: uma das piores catástrofes econômicas autoimpostas no que vai do século. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ   

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